No sul da Tailândia, centenas de crianças estudam ao lado de armas

Noel Caballero.

Pattani (Tailândia), 21 mai (EFE).- Os 700 alunos que estavam na sala de aula escutaram a forte explosão que se ocorreu perto da entrada do colégio localizado no sul da Tailândia, território onde os insurgentes muçulmanos têm em suas miras as escolas e os professores.

A deflagração, registrada em setembro de 2016, matou uma menina de 4 anos, seu pai e feriu dez civis.

Mais de 185 professores foram mortos desde então por ataques atribuídos aos grupos armados muçulmanos que reivindicam a independência das províncias de Pattani, Yala e Narathiwat, localizadas no sul da Tailândia, segundo números do Human Rights Watch (HRW).

"Os insurgentes consideram que o sistema educacional promovido pelo governo é um símbolo e primeira frente de batalha da ocupação do estado tailandês na região", explica à Agência Efe, Sunai Phasuk, investigador e responsável por esta área no HRW.

Todas as manhãs, tanques do Exército escoltam os professores budistas até os centros, cujo perímetro é guardado por grupos paramilitares e voluntários fortemente armados enquanto as crianças estudam e jogam.

Antes de chegar até as instalações, carros, motocicletas e todo tipo de veículos precisam passar por diversos postos de controle colocados ao longo da estrada.

Em 2012, os professores entraram em greve para pedir ao Executivo maior proteção após uma escalada de ataques contra a classe.

"Eu sempre carrego uma pistola, inclusive dentro de sala de aula", revela à Efe, um professor, na porta do colégio e, como prova, levanta um pouco a camisa e mostra o cabo da arma.

Após o separatismo muçulmano retomar a luta armada em 2004, agrupamentos civis entregaram, de maneira gratuita, armas leves aos educadores para que pudessem se defender, mas a iniciativa "deu errado", pois os rebeldes aumentaram os ataques contra os professores para roubar suas pistolas.

"Apesar de que atualmente não tenha uma queda nos ataques contra instituições educacionais, a violência ainda continua. Em alguns casos, os rebeldes atuam contra os oficiais que ficam no local e põem em risco a vida de professores e alunos", diz o especialista.

As escolas islâmicas também sofrem com a violência, por um lado os insurgentes agridem os professores muçulmanos que colaboram com o Estado e pelo outro lado, as forças de segurança fazem operações policiais nas escolas muçulmanas na busca pelos rebeldes.

De acordo com as forças governamentais, os grupos armados recrutam militantes no centro de ensino muçulmanos.

O estado de emergência vigente em Pattani, Yala e Narathiwat concede poderes especiais para as autoridades, podendo realizar detenções arbitrárias, em muitos casos de estudantes e professores.

"As leis negam aos detidos o acesso a advogado durante sete dias e permitem uma prorrogação por outros 30 dias", afirma Kittipong Jantaviroj, diretor do Conselho Muçulmano de Advogados.

O advogado diz que muitos dos seus clientes denunciaram torturas durante os interrogatórios e afirma que também há presos que morreram nos quartéis.

"Atos que não são investigados e contra os que não se pode fazer nada por causa da lei", lamenta Kittipong, denunciando outras ações "intrusivas" das autoridades, como exigir dos alunos das escolas muçulmanas mostras de DNA, para provar que não são suspeitos.

O especialista do HRW afirma em que os dois lados colocam em perigo as crianças e atrapalham sua educação.

Pelo menos 6,7 mil pessoas, a maioria civis, morreram no conflito do sul do país desde 2004.

Um Estado Islâmico, onde era o antigo Reino de Patani, formado por Pattani, Yala e Narathiwat, é a principal reivindicação dos insurgentes, que denunciam a opressão e a discriminação por parte da administração budista, religião maioritária do país.

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