Guerra do Seis Dias: o enterro do nacionalismo árabe nas areias do Sinai

Jorge Fuentelsaz e Abduljalil Mustafa.

Cairo/Amã, 1 jun (EFE).- Os quase seis dias de duração da Guerra de 1967 foram suficientes para enterrar nas areias do Sinai o projeto nacionalista árabe promovido pelo então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, com um reequilíbrio de forças na região que se inclinou em direção às monarquias do Golfo.

A esmagadora vitória de Israel sobre os vizinhos, ou a "enrascada israelense" contra o Egito, como classifica o especialista do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos Al Ahram, Mohamed Gomma, mostrou que os cálculos de Nasser estavam errados.

Além disso, os países que acompanharam a aventura bélica de Nasser também sofreram grandes derrotas, como a Jordânia, que perdeu Jerusalém e a Cisjordânia, e a Síria, que viu as tropas de Israel ocuparem as estratégicas Colinas de Golã.

"O Egito não estava em absoluto preparado para a guerra, e ocorreu o que todos já sabem, o que teve grandes consequência tanto no equilíbrio da região como na queda do projeto nasserista e o que muitos chamavam o regime revolucionário de Nasser", disse Gomma.

A arrebatadora personalidade de Nasser, que assumiu como presidente de Egito em 1954, após o golpe de Estado de dois anos antes contra a monarquia que governava o país até então, tinha inspirado muitos líderes e intelectuais árabes, promovendo o sonho de uma grande nação árabe unida sob o comando dos egípcios.

"Algumas ideias polarizaram a região entre os chamados regimes revolucionários progressistas e as monarquias conservadoras, que olhavam os nasseristas com receio e temor", indicou Gomma, que também destaca a existência de outros conflitos entre árabes na época.

Mas a Guerra de Seis Dias, que Tel Aviv iniciou no dia 5 de junho de 1967 depois de Nasser ter enviado seu exército à Península do Sinai, fechando o estreito de Tiran e forçando a retirada dos "capacetes azuis" na fronteira entre Egito e Israel, pôs fim, para sempre, às ambições imperantes.

"O nacionalismo árabe como um projeto pan-árabe, com uma base forte, recebeu um golpe fatal em 1967 e começou a perder seu brilho", explicou à Agência Efe Jawad Hamad, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio de Amã, na Jordânia.

Para Hamad, esse revés do pan-arabismo também representou o despertar do povo árabe, que deixou de confiar na capacidade dos países enfrentar Israel com sucesso para recuperar os territórios perdidos durante a guerra.

Uma das consequências diretas da perda de confiança foi a emancipação do movimento de liberdade palestina e sua progressiva desvinculação da tutela árabe.

Gomma também destaca o reequilíbrio de forças em favor dos "petrodólares", em referência aos países do Golfo Pérsico. E cita como a derrota de 1967 favoreceu, além disso, uma mudança do discurso político, que começou a usar de retórica cada vez mais religiosa desde então.

"O fim do projeto nasserista favoreceu o clima para o surgimento dos petrodólares, que constituiu uma importante base que conduziu ao aumento do islã político", destacou o especialista egípcio.

O diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio de Amã também indica que o retrocesso do nacionalismo árabe permitiu o levantamento das restrições impostas ao islã político durante a era de Nasser, que tinha lançado uma dura repressão contra o "islã moderado, representado pela Irmandade Muçulmana".

"O islã político foi alvo de uma forte despertar a partir de 1967 e o relaxamento da repressão à Irmandade Muçulmana por parte de Anwar al Sadat (presidente do Egito entre 1970 e 1981) permitiu o ressurgir do islã moderado", ressaltou Hamad.

Essa corrente política se viu reforçada, posteriormente, com a derrota soviética na guerra do Afeganistão nos anos 80, bem como com o triunfo da revolução islâmica do Irã em 1979.

No entanto, Gomma reforça que, apesar da Guerra dos Seis Dias ter sido uma das principais causas que conduziram à situação atual na região, há outros fatores igualmente importantes, como a invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003 e a Primavera Árabe de 2011.

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