Palestinos relatam traumas da perda da terra e de 50 anos sob ocupação

Ana Cárdenes.

Jerusalém/Ramala (Cisjordânia), 1 jun (EFE).- A ocupação israelense dos territórios palestinos completa na próxima semana cinco décadas, nas quais a situação de seus residentes, segundo eles próprios, tem se deteriorando sob o regime militar e policial e o fracasso de um acordo de paz que lhes permita a independência.

"Israel utilizou estes 50 anos para ficar com todo o nosso território e destruir a solução de dois Estados. Está acabada", lamentou Ziad Hamouri, advogado e diretor do Centro de Jerusalém para os Direitos Legais, Sociais e Econômicos.

Os palestinos aceitaram nos Acordos de Oslo, de 1993, construir seu Estado em apenas 22% da Palestina histórica, lembrou Hamouri, acrescentando que agora Israel não lhes daria "nem sequer 12%", razão pela qual considera impossível o estabelecimento de um Estado palestino.

"É a ocupação mais longa da história moderna", disse Ishaq Albuderi, de 72 anos e diretor da Sociedade de Estudos Árabes, um centro de documentação e investigação estabelecido em 1980.

"A guerra começou em 5 de junho, e em três dias as tropas israelenses entravam na Cidade Velha e o exército jordaniano abandonava o território. Desde então, vivemos sob ocupação. Israel anexou Jerusalém Leste e começou a aplicar suas leis e a mudar tudo: o sistema educativo, legal, econômico. Desde o primeiro dia tentaram 'judaizar' a cidade", contou.

Albuderi ainda lembra da prefeitura de Jerusalém Leste, perto da porta de Yafa, na velha cidadela amuralhada, que é hoje um edifício israelense.

"Começaram a mudar a identidade da cidade e a construir assentamentos judaicos" em Jerusalém Leste, na Cisjordânia e, mais tarde, na Faixa de Gaza.

Israel abandonou unilateralmente as colônias de Gaza em 2005, mas as de Jerusalém Oriental e Cisjordânia continuam, e nelas já vivem cerca de 600 mil colonizadores (segundo a ONG israelense Paz Agora), aos quais se somam outros 23 mil no Golã sírio, também ocupado.

A ONU vê os assentamentos como um dos principais empecilhos para alcançar a paz, ainda que Israel negue e lembre que abandonar Gaza serviu para aumentar a violência contra o seu estado.

Na Cisjordânia, a ocupação é gerenciada por um organismo militar, que controla a segurança e também os assuntos civis em boa parte do território (60%, a chamada Área C), enquanto em Jerusalém não há tropas porque Israel anexou o leste da cidade em 1980, em uma decisão não reconhecida pela comunidade internacional, e o considera território soberano.

As consequências da ocupação tomam mil formas, mas o denominador comum é que a população se sente governada por algumas autoridades que não são as suas e que, além disso, considera inimigas.

"Israel derruba casas palestinas quase toda semana, não dá permissões de construção aos árabes. Em Jerusalém, trocaram os nomes das ruas, que tinham centenas de anos, por nomes judeus, e nos proíbem de usar nossa bandeira. Ocupação significa que você não tem liberdade, podem te prender quando quiserem, podem mudar sua vida de um dia pro outro, controlam tudo o que te envolve", explicou Albuderi.

A situação, ressaltou ele, alimenta o ódio contra o ocupante e não cessará até que haja paz.

Outra consequência da ocupação foi a progressiva separação das populações palestinas em Gaza, Jerusalém e Cisjordânia, que cada vez têm mais dificuldade em se encontrar, especialmente com a Faixa sob bloqueio, e os impedimentos para que jerosolimitanos possam trazer seus cônjuges à sua cidade quando se casam com um cisjordaniano, em território adjacente.

O muro que Israel constrói na Cisjordânia agravou os problemas de mobilidade e confiscou terras palestinas ou deixou proprietários afastados delas.

"Que liberdade temos? Quando você cruza um posto de controle militar e sofre a humilhação e os insultos; te deixam três ou quatro horas esperando sem motivo, então você compreende o que é a liberdade de movimento", queixou-se Hamouri.

Segundo ele, a ocupação se centrou em dois aspectos: "tomar o controle da terra e solucionar o que Israel chama de problema demográfico", ou seja, lograr uma maioria judaica no que os setores mais extremos chamam de Grande Israel, toda a terra entre o Mediterrâneo e o rio Jordão.

"Hoje os palestinos vivem em ilhas rodeadas de assentamentos: conseguiram 'judaizar' e controlar muitas terras", denunciou.

A comunidade internacional é taxativa em sua condenação e no seu apoio à solução de dois Estados, com a linha de armistício de 1949 (que serviu de fronteira até 1967) como base.

Mas as negociações não deram frutos em duas décadas e os palestinos se sentem abandonados por um mundo que, segundo acreditam, não fez o suficiente para livrar-lhes de uma ocupação que já dura meio século.

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