Deus "se refugia" em pequena ermida ortodoxa no meio da imensa Antártida

Júlia Talarn Rabascall.

Ilha do Rei Jorge (Antártida), 2 jun (EFE).- Entre o denso nevoeiro que envolve a estação científica russa Bellingshausen, construída ainda na época da União Soviética, a ornamentada cúpula da ermida de Santa Trindade, a igreja ortodoxa mais austral do planeta, se sobressai.

No caloroso interior dourado da ermida, a música bizantina ressoa e é possível distinguir ícones religiosos da tradição ortodoxa. Através de uma pequena janela, observa-se o gélido manto de neve que durante todo ano cobre parte da Ilha do Rei Jorge, na Antártida.

O pequeno templo de madeira acinzentada foi construído em 2002 na região de Altai, de acordo com a tradição ortodoxa russa. Dois anos depois, foi desmontado e levado de barco até o extremo sul do planeta, onde foi instalado ao lado da base científica.

Desde então, os sacerdotes do país se revezam para viver durante alguns anos nesta planície desolada para realizar missas e apoiar espiritualmente os cerca de 30 trabalhadores que moravam na estação Bellingshausen.

Para Palladium, o atual padre da ermida, viver no continente branco é um "privilégio" que o permitiu ouvir Deus de uma forma mais profunda e encontrar a "verdade pura".

"A Antártida oferece a oportunidade de você se conhecer melhor e de se aproximar muito mais de Deus", disse Palladium à Agência Efe.

Palladium, seu nome de sacerdócio, usa uma batina preta e ostenta uma grande barba. O padre fala devagar, com a cadência de um sábio vivido, mas se move com a rapidez de sua própria idade, que não deve passar da casa dos 35 anos.

Quando não está celebrando as missas, o religioso veste um macacão térmico e impermeável, trabalhando aos lados dos demais companheiros na dura tarefa de manter e consertar a base, em uma região na qual, no inverno, a temperatura é menor que 30ºC negativos.

É o quarto ano de Palladium na base. "Aqui não há televisão, internet ou estereótipos. Só há espaço para o silêncio e a tranquilidade", relatou o padre.

Para chegar ao templo, os moradores da estação precisam subir por um inclinado caminho de pedras que conduz ao topo de uma pequena colina. Do alto, é possível ver grande parte da península Fildes, que abriga também as bases do Chile e da China na região.

Para o visitante, entrar na pequena igreja é como se transportar para um mundo que convida à introspecção, em que os cantos gregorianos se misturam com o aroma balsâmico e a fumaça das velas.

"Após quatro anos, estou convencido que a Antártida é um lugar muito especial, cuja passagem ressoa nos visitantes ao longo de toda a vida", ponderou.

Na avaliação de Palladium, isso justifica a existência do tempo nessa paisagem solitária, só habitada, além dos que vivem na estação, por alguns pinguins e diversos grupos de leões marinhos.

"A igreja também serve como um chamado ao coração. As pessoas que chegam à ilha querem conhecê-la, e isso é uma oportunidade para mostrar a religião ortodoxa ao mundo", comentou o religioso.

O templo foi construído especificamente para resistir às extremas condições climáticas que castigam a região. A estrutura piramidal e algumas grandes correntes presas ao solo permitem que o tempo suporte a força dos ventos, que chegam a mais de 150 km/h.

No local já foram realizados dois casamentos. O primeiro, em 2010, foi entre um cientista russo da base e sua esposa. Anos depois, uma pesquisadora russa e um chileno também resolveram escolher a igreja para eternizar seu amor.

Dos sete locais de culto espalhados pela Antártida, a Igreja de Santa Trinidade é a única dedicada ao cristianismo ortodoxo russo.

A poucos metros dela, na base chilena, está a capela Santa Maria Rainha da Paz, um templo católico construído dentro de um grande container metálico.

"Acredito que neste lugar há uma energia muito especial. Aqui não há lugar para a hipocrisia, a Antártida é pura sinceridade. Por isso essa pequena igreja é tão poderosa", concluiu Palladium.

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