Narcotráfico se apropria do bônus demográfico da América Latina, afirma Cepal

Manuel Fuentes.

Santiago do Chile, 3 jun (EFE).- A secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, declarou em entrevista à Agência Efe que "o narcotráfico é o que de verdade está se apropriando do bônus demográfico que tem a América Latina".

"A desigualdade estrutural é a que conspira, porque a juventude, que não tem oportunidades, recorre a setores de ilegalidade", disse a responsável pelo organismo da ONU que nesta semana apresentou o seu relatório anual sobre a pobreza.

O bônus demográfico é um fenômeno que se dá dentro de um processo de transição demográfica em que a população em idade de trabalhar é maior que a dependente e, portanto, o potencial produtivo da economia é maior.

"Os nossos países devem pôr o foco nos jovens para que se apropriem do progresso técnico, para que tenham capacidades diversas, para que a automatização não lhes pegue prevenidos, mas sim formados", declarou Bárcena.

As idades críticas são a infância, a adolescência e a juventude, ressaltou a secretária-executiva da Cepal, cujo relatório Panorama Social 2016 sustenta que a desigualdade é um obstáculo para alcançar o desenvolvimento sustentável na América Latina e no Caribe.

O descenso da desigualdade nos investimentos se retardou desde 2012 até agora, aponta este documento, que reflete que a desigualdade é "uma característica histórica e estrutural" da região "que se manifesta através de múltiplos circuitos viciosos".

Ainda que a crise tenha começado em 2008, "a onda progressista que houve na América do Sul" fez com que nesses anos muitos países aplicassem "políticas muito ativas para reduzir a desigualdade", o que permitiu que a desigualdade diminuísse 1,2% até 2012.

Esta espécie de "keynesianismo global na América Latina protegeu a população mais vulnerável", afirmou Bárcena, para quem, apesar do esfriamento dos últimos seis anos, a região segue comprometida com a redução da desigualdade.

Bárcena advertiu também do risco entranhado no fato de a desigualdade se concentrar em crianças, adolescentes e jovens.

"Se não estão bem nutridos, se não podem completar sua educação, se têm problemas de saúde, isso definitivamente vai causar impacto no seu futuro", assegurou.

Entre os países que mais avançaram na aplicação de políticas públicas para reduzir a desigualdade social se destaca o Brasil, "que impacta pelo nível onde começou, com um coeficiente de Gini de 0,6 que agora está em 0,5", explicou a responsável da Cepal.

O coeficiente de Gini é um indicador da desigualdade dos investimentos dentro de um país. Varia entre zero, para indicar a máxima igualdade, e 1, que expressa a máxima desigualdade.

"A concentração da riqueza é um dos temas centrais que devemos abordar no futuro", opinou Bárcena, que mencionou dois casos emblemáticos: a concentração da terra na Colômbia e a de ativos financeiros e não financeiros no México.

A secretária-executiva da Cepal também se referiu à dificuldade para efetuar reformas tributárias na América Latina que conduzam a um equilíbrio na distribuição do investimento.

"Nos países desenvolvidos, a taxa tributária é de 34%. Na nossa região, não chegamos a 21%. Temos uma grande brecha. Os nossos países são muito resistentes ao pagamento de impostos, sobretudo os diretos, que não são regressivos", explicou.

"Enquanto não tenhamos uma cidadania que esteja propensa a exercer sua responsabilidade e governos que nos demonstrem transparência e um afastamento da corrupção, se manterá o círculo vicioso: as pessoas não pagarão impostos porque o governo não vai gastá-los bem e então os recursos não chegarão às camadas mais necessitadas", advertiu Bárcena.

Em outro âmbito, a secretária-executiva da Cepal comentou que a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos "alterou as relações de poder com a China e com a Europa".

"A América Latina não esteve muito em seu radar, exceto o México e possivelmente a Colômbia, pelo processo de paz", salientou.

Em seu julgamento, as tendências protecionistas nos Estados Unidos podem ter um efeito positivo na relação entre a América Latina e a União Europeia.

"É uma aliança natural, histórica, baseada em valores e cultura. Esta associação deve fortalecer-se com um novo modelo de relação que busque a prosperidade compartilhada", enfatizou.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos