O feliz encontro de uma vietnamita com o pai veterano de guerra dos EUA

Eric San Juan.

Cu Chi (Vietnã), 5 jun (EFE).- Quando já perdia a esperança e graças a um exame de DNA, a vietnamita Nguyen Thi Thuy finalmente encontrou o pai, um antigo soldado americano que aos 69 anos ignorava o fato de ter deixado para trás uma filha quando terminou de servir no Vietnã.

Thuy, de 45 anos, se lembra emocionada da primeira conversa por telefone com o pai, em março deste ano, quando a organização Fatherfounded, dedicada a reunir veteranos de guerra dos Estados Unidos com suas famílias vietnamitas, os colocou em contato.

"Falamos com a ajuda de um tradutor porque não sei inglês e ele não sabe vietnamita. Ele me disse: 'olá, minha filha'. Me pediu perdão por não estar comigo e, ainda que ele tenha outra família, me ofereceu ajuda. Eu não conseguia parar de chorar, quase não pude dizer nada", relembrou à Agência Efe.

Este foi o término de uma busca que começou em 1990, quando Thuy solicitou ao consulado americano um visto para viajar aos EUA. Mas o pedido foi feito tarde. Nos anos anteriores, cerca de 23 mil pessoas na mesma situação se beneficiaram de um programa de amparo impulsionado por Washington e pela ONU nos anos 80.

No entanto, os numerosos casos de fraude provocaram um maior rigor nos requisitos para os milhares que ainda ficaram no país, que necessitavam algum documento para provar a filiação.

Todo o que Thuy tinha era um nome, Robert Richardson, que serviu em Long Binh, perto da antiga Saigon, entre 1972 e 1973, e a descrição física feita por sua mãe.

"Ela me disse que ele era muito parecido comigo, o mesmo corpo. E também a cor da pele. Ainda que ele seja negro, não é muito escuro. Não tenho fotos porque após a guerra a minha mãe as destruiu por medo", explicou.

A história da mãe de Thuy é similar às de diversas mulheres vietnamitas que tiveram filhos com um pai americano: trabalhava nas dependências militares e teve uma relação de vários meses com Richardson, mas mudou de trabalho, eles deixaram de se ver e, quando ela ia anunciar a gravidez, ele já tinha voltado para casa.

Temendo possíveis represálias das autoridades comunistas, a mãe deu Thuy para a adoção e formou uma nova família. Da infância no povoado de Cu Chi, no sul do país, ela lembra as longas horas de trabalho no campo e a insuportável solidão, que tentava combater imaginando como seria seu pai.

"As crianças riam de mim, me insultavam. Um dia um grande grupo de crianças me seguiu com paus e pedras ao sair da escola. Um professor as viu e me protegeu. Nunca me senti à vontade no colégio, embora gostasse de estudar", recordou.

A chegada à idade adulta foi um alívio: acabaram as piadas e discriminações, começou a trabalhar como costureira e conheceu o seu atual marido, com quem tem duas filhas, hoje com 17 e 15 anos. Ela enviou mais solicitações ao consulado ao longo dos anos, mas continuava sem ter os requisitos.

A sorte mudou no ano passado, quando um veterano de guerra americano que colabora com a Fatherfounded levou ao Vietnã equipamentos para exames de DNA e retornou aos EUA com amostras de saliva para comparar com uma base de dados.

O teste foi conclusivo: Robert Richardson, residente no estado do Alabama, é o pai e Thuy quer se encontrar com ele, não só para visitá-lo, mas também emigrar.

"Estamos esperando a confirmação do segundo teste de DNA e quando o tivermos poderemos iniciar o processo. O meu pai me ofereceu ajuda, mas não sei se posso me encontrar com ele porque ele tem a própria família. Ainda não falamos disso", declarou.

Thuy sabe dos possíveis obstáculos de adaptação, mas está disposta a correr o risco e oferecer às filhas um "futuro melhor" em um país rico.

"Por mais difícil que seja, quero estar com o meu pai e preciso da mudança. Sempre me senti fora do lugar, como se não pertencesse a nenhum lugar", comentou Thuy.

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