Colonizadores israelenses trocam justificativa ideológica por econômica

Laura Fernández Palomo.

Jerusalém, 9 jun (EFE).- O israelense Noam Cohen garante não ter motivações políticas para ter construído sua casa e sua loja no topo de um monte em pleno coração da Cisjordânia, mas o espaço que tanto o "inspira" é considerado pela comunidade internacional território palestino ocupado, e por sua vizinhança, uma colônia.

Cohen chegou a Neveh Erez, um idílico monte entre Jerusalém, o Mar Morto e o Vale do Jordão, em 1999 "por amor à natureza", após ter fracassado em seu negócio em Neguev, no sul de Israel. Sem autorização, mas com o consentimento do governo, como alega, ele fundou este assentamento, onde o rústico bar que gerencia reúne israelenses e estrangeiros em festivas noites de música étnica.

Com os palestinos beduínos que passam pela área, Cohen mantém uma "relação de respeito e suspeita", conforme descreveu, já que as necessidades domésticas o fizeram pedir ajuda em mais de uma ocasião.

Cohen faz parte de um coletivo que em cinco décadas deixou de ter motivações ideológicas para justificar sua residência em terra ocupada por razões econômicas ou pessoais, criando um grupo de difícil definição.

"Durante a primeira década (da ocupação), a maioria dos colonizadores era de laicos que se assentaram no Vale do Jordão por motivos de segurança. Nos anos 70 começaram os movimentos nacionalistas que pressionavam o governo para que construísse no interior de Cisjordânia", declarou à Agência Efe Daniel Bar Tal, professor emérito de Psicologia na Universidade de Tel Aviv.

Os colonizadores nacionalistas são considerados o motor da ocupação que tem como objetivo a criação do Grande Israel (com o território entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo) e se baseiam em referências bíblicas para reivindicar que a Cisjordânia pertença ao povo judeu.

Nessa primeira época, o governo estendeu a denominação de "terras estatais" e legalizou o "confisco de terrenos na Cisjordânia para usos públicos em benefício da comunidade", lembrou a ONG israelense Shalom Ajshav (Paz Agora), nas quais depois foram construídos grandes assentamentos.

Os colonizadores eram vistos por muitos como a mão executora do governo para expandir sua soberania em território palestino ocupado.

Após a guerra dos Seis Dias, em 1967, "criou-se um sentimento messiânico, e nesse cenário germina o movimento da direita, uma ideologia neossionista com a qual os colonizadores vão se tornando cada vez mais religiosos", opinou Itzhak Schnell, professor de Geografia Política na Universidade de Tel Aviv.

Com a ocupação em plena expansão, o governo israelense promoveu, principalmente nos anos 1990, um movimento de colonizadores oferecendo espaços mais baratos e vantagens fiscais.

Neste contexto foram criadas comunidades para judeus ultraortodoxos, um dos coletivos mais pobres de Israel, como Modin Ilit, que tem atualmente 60 mil residentes religiosos, mas não necessariamente nacionalistas. Além disso, ocorreram movimentos de população de Jerusalém a colônias próximas devido ao alto custo de vida na cidade, destacou a Shalom Ajshav.

Este é o caso de Daniel Goldzweig, um chileno casado com uma mexicana que se mudou há 17 anos para Tel Tzion, uma colônia deste tipo criada para dar abrigo a jovens casais haredis (ultraortodoxos) de Jerusalém, onde afirma que não se considera um "obstáculo para a paz".

"Nós queríamos viver em Israel. Ponto", ressaltou, apesar de a comunidade internacional não considerar esse controle legítimo.

"Sionista", como ele mesmo se define, e eleitor do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, Goldzweig tem "trato com os palestinos" que atende em seu supermercado e diz ser a favor da paz, ao mesmo tempo em que admite que, se Israel deixar os territórios palestinos, terá que buscar outro lugar para viver.

Em outra colônia, a de Ariel, cuja universidade atrai milhares de estudantes israelenses, Maria Mitskoun afirmou que fixou sua residência quando decidiu deixar definitivamente seu país natal, a Rússia, por razões políticas e econômicas.

Mitskoun contou à Efe que teve "dúvidas" quando se informou "da complexidade do lugar", mas decidiu que era "o melhor lugar para uma imigrante porque tinha amigos que lhes facilitariam a integração".

Laicos e religiosos, nacionalistas e empreendedores, messiânicos e pragmáticos compõem hoje a idiossincrasia dos mais de 385 mil israelenses que vivem em assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais pela comunidade internacional.

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