Miss Trans batalha para mudar ideia de relações intercomunitárias em Israel

Fernando Prieto Arellano.

Tel Aviv, 10 jun (EFE). - Talleen Abu Hanna, uma árabe de 22 anos, é atualmente a Miss Trans Israel e pode ser a figura certa para tentar suavizar a imagem que paira sobre as relações intercomunitárias no país, aproveitando a Parada Gay 2017.

Nascida em Nazaré, no norte de Israel, onde a maioria da população é árabe e a relação com os judeus é tensa devido à questão palestina, Talleen, que é cristã, teve que suportar a rejeição, somada ao risco de morte que ser transexual representava em seu círculo íntimo.

"Nasci menino, o filho mais novo de quatro, o único homem. Lembro que desde muito pequena queria ser e me comportar como uma menina. Todo mundo torcia o nariz e me dava carrinhos de presente. Eu era o típico menino 'fofo', que todos queriam apertar", contou a jovem a um grupo de jornalistas.

No entanto, as coisas mudaram na adolescência. Ela se sentia mulher: queria se portar e viver como tal.

"Em uma cidade conservadora como Nazaré isso era quase impossível sem colocar em risco a integridade física. A comunidade árabe, seja cristã ou muçulmana, é muito fechada e não aceita os trans sob qualquer aspectos", explicou.

Talleen, que ficou em segundo lugar no Miss Trans Internacional, que aconteceu na Espanha em 2016, é uma celebridade em Israel, onde é uma famosa modelo e participou do "Big Brother". Ainda que não tenha vencido o concurso, sua participação foi muito importante para chamar a atenção para a comunidade trans.

Na conversa, ela estava acompanhada de sua porta-voz, mentora e, como diz, sua "mãe", Israela Lev, trans há 40 anos e importante ativista dos direitos do LGBT.

Segundo Lev, agora muita mais gente conhece o tema e fala sobre no mundo árabe.

Já Talleen lembra que "muitos meninos e meninas árabes trans vivem situações de medo em seus povoados e cidades e praticamente não podem sair de casa", isso se a família aceitar, o que nem sempre acontece.

Ela mesma abandonou a cidade natal e se instalou em Tel Aviv. A cidade é considerada uma espécie de refúgio para a comunidade LGTB na região, já que são muitos os palestinos de Ramala, Belém, Nablus e até da Faixa de Gaza (controlada pelo grupo islamita Hamas) que arriscam tudo para chegar até lá.

Lev relatou que levou o assunto ao Kneset (parlamento israelense), onde se reuniu com um deputado árabe para pedir ajuda para os seus cidadãos que, além dos problemas inerentes ao fato de ser minoria em Israel, padecem as vicissitudes por ser gay em comunidades tão fechadas.

"Ele não me escutou. Não quis saber do assunto. Eles não querem fazer nada porque sabem que a sociedade que representam vai ouvir tal demanda e pode até rejeitá-los", lembrou Lev, que prefere não divulgar o nome do político.

A situação dos árabes trans é tão complexa que O.M. (o nome é mantido em sigilo por questões de segurança) disse à Agência Efe que vive em Jaffa com o namorado judeu, mas seus pais, originários de uma aldeia próxima a Nazaré, não sabem que ele é homossexual, nem que está há três anos morando com o parceiro.

Os pais do companheiro, ao contrário, sabem da relação dos dois e, após um "período difícil de assimilação", "acabaram aceitando" que o namorado fosse árabe.

Para O.M. é tudo muito claro: "No meu povoado me atirariam pedras se soubessem que sou gay. Em Gaza me matariam. Aqui sou livre. Em nenhum país da região eu poderia viver como homossexual, só em Israel".

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