Dissidentes cubanos ficam divididos após giro de Trump em relações bilaterais

Havana, 16 jun (EFE).- Líderes da oposição interna de Cuba receberam nesta sexta-feira com considerações distintas, como "alegria" e pessimismo, o anúncio realizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que reverte grande parte da política de normalização de relações com a ilha promovida por seu antecessor Barack Obama.

Berta Soler, uma das fundadoras do grupo dissidente Damas de Branco, disse à Agência Efe que a nova mudança na política de normalização das relações dos EUA com a ilha "enche (os dissidentes cubanos) de alegria" e mostra que o governo Trump "conhece bem a oposição interna em Cuba e a repressão que ela sofre".

O presidente americano desafiou hoje o governo de Cuba a negociar "um acordo melhor", deu por "cancelado" o pacto estipulado entre Obama e Raúl Castro para normalizar as relações bilaterais e condicionou "qualquer mudança" em sua postura relativa a Cuba a "avanços concretos" para objetivos como eleições livres e a libertação dos presos políticos.

"Esperávamos estas medidas e as novas condições que o governo dos EUA tem que colocar para a normalização das relações com o regime cubano, que nos agride e que ninguém consegue conter, porque o que Obama fez foi dar sinal verde e legitimar o regime", declarou Soler por telefone da sede das Damas de Branco em Havana.

Soler, um dos rostos mais conhecidos da dissidência cubana, disse que as decisões anunciadas por Trump "são uma forma de levar Cuba a uma democratização, que depende dos cubanos". "Acredito que temos o direito de contar com o apoio do governo dos EUA, que sempre quis a liberdade para o povo de Cuba", frisou a dissidente.

Além disso, Soler insistiu em afirmar que suas reivindicações fundamentais são a libertação dos presos políticos, o fim da violência contra a dissidência e mais liberdades e respeito aos direitos humanos dos cubanos.

A líder das Damas de Branco considerou que as novas medidas de Trump "vão beneficiar a sociedade civil cubana" porque "o dinheiro que (Cuba) recebe como resultado dos negócios com as Forças Armadas (da ilha) é para reprimir e não para melhorar a vida do povo cubano".

Soler foi convidada a assistir ao anúncio de Trump em Miami, mas contou que as autoridades a impediram de embarcar ontem no aeroporto de Havana com o argumento de que ela tem uma "limitação de saída" do país, supostamente pelo não pagamento de uma multa notificada em setembro do ano passado.

O dissidente Manuel Cuesta Morúa, da organização Arco Progressista, no entanto, tem uma opinião diferente sobre a nova política proposta pelo magnata nova-iorquino para a ilha.

"Parece-me uma notícia ruim para a promoção da democracia em Cuba, e também uma notícia ruim para os cubanos em geral, o retorno a uma política fracassada para tentar fazer com que os direitos humanos e a democracia sejam respeitados em Cuba", declarou à Efe Cuesta Morúa.

Para esse ativista, num mundo tão complicado em termos democráticos, "pensar que o isolamento de um governo pode levá-lo a fazer mudanças positivas em favor do respeito aos direitos humanos e a democracia é não entender o que está acontecendo no mundo atualmente".

Cuesta Morúa acredita que o "mais sábio" seria "continuar os intercâmbios com a sociedade cubana em uma lógica de vencer, e não voltar à lógica de supostos ganhadores e perdedores reais na qual quem sempre perdeu foi o povo cubano".

O ativista, que promove uma iniciativa que busca impulsionar o movimento popular para encaminhar uma transição democrática no país caribenho, acredita que, "de nenhuma maneira a visita de cidadãos americanos (a Cuba) deveria ser limitada, algo que beneficiou mais ao setor privado que às empresas militares".

Cuesta se mostrou favorável a manter o intercâmbio "cada vez mais constante entre os cidadãos cubanos e norte-americanos através do setor privado, que é mais rentável e muito mais atrativo e gera mais valor agregado que os hotéis controlados pelos militares".

Além disso, o dissidente político advertiu que um retorno ao conflito dos tempos da "Guerra Fria" restabeleceria esse "álibi" que estava sumindo do imaginário dos cubanos, e a defesa dos direitos humanos e da democracia em Cuba não se beneficiariam disso.

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