Kohl e Merkel, a história de uma emancipação

Gemma Casadevall.

Berlim, 16 jun (EFE).- Nem a Alemanha de hoje nem sua atual líder, Angela Merkel, seriam o que são sem a figura de Helmut Kohl, o chanceler que apadrinhou politicamente àquela que chamava de "moça do leste" e que, em um dado momento, se emancipou do patriarca para escrever sua própria história.

A Kohl se costuma atribuir o papel de "descobridor" de Merkel, a jovem crescida em território comunista à qual em 1991, dois anos após a queda do muro de Berlim, converteu em ministra de Mulher e Família do primeiro governo da Alemanha unificada.

Na realidade, esse papel correspondeu a Lothar de Maizière, chefe do governo da República Democrática da Alemanha (RDA) na fase de transição até a sua dissolução, que escolheu como vice-porta-voz essa jovem doutorada em Ciências Físicas e novata na política.

De Maizière reconheceu em Merkel características atípicas no âmbito político, como a capacidade para resolver o problema mais complexo examinando cada uma de seus particularidades.

Mas nem de longe De Maizière enxergou os dotes de liderança com os quais hoje se identifica Merkel, na busca da reeleição para um histórico quarto mandato, mas ainda abaixo do recorde de 16 anos de permanência no poder de Kohl.

Kohl a adotou como membro do seu Executivo, necessitado de jovens talentos surgidos da RDA que não estivessem marcados pelo regime que construiu o muro.

O apelido de "moça do leste" refletia o paternalismo com o qual Kohl a integrou na sua equipe como ministra da Mulher, para acomodá-la no mandato seguinte em uma pasta mais adequada à sua formação científica, a de Meio Ambiente.

O grande momento de Merkel não chegou, no entanto, até 2000, quando o jornal "Frankfurter Allgemeine", paradigma da imprensa conservadora, publicou um artigo de opinião seu convocando a União Democrata-Cristã (CDU) a emancipar-se do patriarca.

Merkel era então secretária-geral do partido que Kohl tinha presidido durante 25 anos e que, após a sua derrota eleitoral contra o social-democrata Gerhard Schröder, em 1998, tinha passado a ser comandado por seu eterno afilhado político, Wolfgang Schäuble.

Após a passagem à oposição do CDU surgiram revelações de uma rede de financiamento irregular durante a "era Kohl" que afundou o partido no pior escândalo da sua história.

Schäuble teve que afastar-se da presidência e Merkel assumiu as rédeas da legenda política em um momento em que a maioria dos seus barões preferiu não se expor.

Kohl e o seu partido entraram em uma fase de ruptura, enquanto Merkel encarregava-se de sanear a legenda.

O patriarca nunca revelou os nomes dos seus teóricos "doadores secretos"; as tensões entre ele e o partido foram se suavizando e houve ameaças de reconciliação com Merkel após esta recuperar a chancelaria para o CDU, em 2005.

Mas Kohl nunca perdoou totalmente o que considerou uma traição e foram frequentes as suas desqualificações à líder da maior potência da União Europeia, a quem frequentemente recriminou por falta de olfato político ou de europeísmo.

Já no âmbito pessoal, foram ilustrativas desse rancor as declarações publicadas em memórias não autorizadas, divulgadas pela imprensa sensacionalista, nas quais Kohl assegurava que quando descobriu Merkel entre os políticos do leste do país esta nem sequer sabia usar corretamente a faca e o garfo.

"Foi um grande alemão e um grande europeu", disse hoje Merkel, por sua vez, sobre o patriarca falecido.

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