A perigosa tarefa de atravessar a fronteira México-EUA

Beatriz Pascual Macías.

Washington, 19 jun (Minds/EFE). - A fronteira entre México e Estados Unidos é a mais mortífera do continente americano, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Lá foram registradas 6.951 mortes entre 1998 e 2016.

De acordo com dados do governo americano, cerca de 3 mil mortes aconteceram no estado do Arizona, principalmente no deserto de Sonora, um dos pontos de cruzamento mais perigosos.

A ONG Colibri Center, na cidade de Tucson, ajuda a identificar os corpos encontrados na fronteira, e em seu levantamento mais recente contabilizou 2.500 desaparecidos no cruzamento. O grupo obtém amostras de DNA de familiares que buscam parentes e as compara com cadáveres do Instituto Médico Legal do Condado de Pima, no sul do Arizona, onde fica o deserto de Sonora.

"É um trabalho importante porque você está tentando dar à família uma resposta que ela esteve esperando por muito tempo", explicou à Agência Efe a gerente do comunicação do Colibri Center, Reyna Araibi.

O objetivo é fechar feridas e evitar criar mais uma vítima, como foi o caso da guatemalteca Lisy Santos Mérida, de 32 anos. O marido dela tentou ir para os Estados Unidos em 2010. Um ano depois, as autoridades da Guatemala entram em contato para dizer que ele tinha sido encontrado morto.

"Me disseram que ele tinha sido achado e que fariam uma cremação. Naquele momento não me dei conta, mas depois pensei: 'como vão cremar se eu não identifiquei?'", contou ela, por telefone, à Agência Efe.

Lisy chegou a tentar suspender a cremação, mas não conseguiu.

"Fiquei com uma caixinha na qual acreditava estar o meu marido", disse, lembrando que, ao chegar em San Marcos, cidade do marido, se encontrou com seus filhos e preparou um "enterro digno".

Em 2016, a OIM contabilizou 700 migrantes mortos no continente a caminho dos Estados Unidos, sendo 75 na América Central e 400 na fronteira México-Estados Unidos. Estes números não incluem os desaparecidos contabilizados pelos comitês de familiares e que dão conta de 450 hondurenhos, 350 salvadorenhos e 80 guatemaltecos, segundo a ONG Fundación para la Justicia y el Estado Democrático de Derecho (FJEDD), do México.

O fenômeno dos desaparecimentos em massa no México está inserido no atual clima de guerra contra o tráfico de drogas e, de fato, na última década, o governo registrou o sumiço de 30 mil pessoas.

"Nesse número estão os próprios migrantes, especialmente vulneráveis às garras do tráfico. Na última década, observamos, no contexto da expansão do crime organizado no México, a criminalidade com foco nos migrantes. São alvos fáceis, de simples identificação e que, em muitos casos, usam uma rota predeterminada. Esse problema já existe há muito tempo, mas que agora é mais perceptível", afirmou Maureen Meyer, uma das diretoras da ONG Wola, nos Estados Unidos.

Para a diretora da FJEDD, Ana Lorena Delgadillo, é preciso investigar porque essas pessoas desaparecem e para que finalidade o crime organizado as quer.

"Sabemos, por exemplo, que elas podem ser levadas para trabalhar no campo ou trabalhar dentro do próprio crime organizado em regime de semi-escravidão", explicou.

Os cartéis controlam atualmente os pontos mais importantes para se chegar aos Estados Unidos, incluindo a rota de trem de carga "La Bestia" - também conhecido como "Trem da Morte" -, que cruza o México. Os narcotraficantes chegam a transformar os coiotes que transferem migrantes a solo americano em cúmplices de sequestros, extorsões e desaparecimentos misteriosos.

"Os cartéis sabem que estes rapazes estão disponíveis, que podem trabalhar um pouco para eles e, se tiverem problemas, os matam depois. Essa é uma das coisas mais tristes, porque sabemos que uma parcela desses migrantes não vai sobreviver ao processo e nada é feito para mudar isso", explicou à Efe o antropólogo Jason de León, professor da Universidade de Michigan.

Desde dezembro de 2015, o México tem uma unidade fiscal especial para investigar os crimes contra migrantes e implantou um mecanismo que permite que famílias denunciem os desaparecimentos nos consulados mexicanos. Outra organização criada em 2013 se encarrega da identificação de corpos.

Para o secretário-executivo de Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), o brasileiro Paulo Abrão, as três iniciativas são "muito boas", mas existem "desafios", ou seja, limites orçamentais para manter essas unidades com o nível técnico que o "drama" migratório exige. Um dos aspectos que mais preocupam Abrão é o plano Fronteira Sul, iniciado pelo México em julho de 2014 e que aumentou a vigilância na fronteira com a Guatemala.

Segundo ele, o programa aumentou as deportações. Entre 2014 e 2015, o número chegou a dobrar. Esse aumento tem um "efeito colateral" ao tornar mais difícil a identificação de pessoas que têm direito a pedir asilo porque sofrem perseguição política ou porque sua vida corre perigo.

"As pessoas começam a procurar novas rotas, mais perigosas, mais isoladas, com muito mais risco, o que faz com que aumente o número de mortos e desaparecidos", destacou Abrão.

Na última década, o México conheceu três grandes massacres de migrantes: dois em Tamaulipas e um em Nuevo León, onde morreu José Enríquez Velázquez, marido da hondurenha Vilma Leticia López.

"Meu marido saiu com o objetivo de nos dar uma vida melhor, cheio de esperanças. Foi no México que ele morreu, em um massacre horrível. Foram todos mutilados. Nos entregaram os pedaços. Para estas famílias, 49 famílias, 49 casos, foi doloroso. São mães devastadas e filhos que ficaram sem pais", narrou Vilma, com a voz embargada, em uma audiência na CIDH em março de 2015.

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