"Coiote" de El Salvador diz que tráfico de imigrantes é "trabalho social"

Sabela Bello.

São Salvador, 19 jun (Minds/EFE).- Um "coiote" faz um trabalho honesto e social, parecido com o de uma ONG, mas cobrando dinheiro por ser um empresário: essa é a descrição de Mario (nome fictício), um salvadorenho de 32 anos, que há quatro anos se dedica ao tráfico ilegal de imigrantes de El Salvador para os Estados Unidos.

"Levar as pessoas de um país para o outro, porque no seu (país) não lhes dão possibilidades de viver dignamente, é parecido com o trabalho de uma ONG, um trabalho social. Só alguém bom pode se dedicar a isso", reforçou o "coiote" em entrevista à Agência Efe.

"Isso dá muito pouco dinheiro. Fazemos um trabalho necessário para sociedade que quer evoluir e procura uma vida melhor", reiterou o salvadorenho sobre a atividade que exerce.

O traficante de pessoas, que pediu para não ter a identidade real revelada, recusou ser filmado ou fotografado, contou que as pessoas pagam entre US$ 6 mil e US$ 20 mil para serem transportados pelos "coiotes". "Mas se alguém for expulso e tiver que retornar, ele tem duas oportunidades de tentar sem custo algum", explica.

A diferença de preço se deve à rota escolhida e à garantia de chegar ao destino na primeira tentativa. "Com US$ 20 mil quase se assegurar que a pessoa chegará sem problema. Esse dinheiro dá para repartir com todos os que nos ajudam no caminho", explica Mario, citando agentes de alfândega, policiais e narcotraficantes.

O grupo que facilita o tráfico é uma rede de funcionários pagos pelos "coiotes" e que estão em cada ponto do trajeto até os Estados Unidos. "Pode ser desde uma mulher que tenha uma casa para alojar os viajantes até um alto funcionário disposto a se vender para fazer de conta que não está vendo o que está acontecendo", explicou.

O entrevistado recusou informar quanto dinheiro sobra após o pagamento dos colaboradores, mas afirmou que não é tanto como as pessoas acreditam. "Não posso dizer a quantia porque ela não é sempre a mesma. Além disso, é dinheiro não declarado", explicou.

"Se formos presos, sabemos que passaremos vários anos na prisão. Por isso, temos que tomar muito cuidado e contar com a ajuda de todos aqueles que colaborem em troco de alguns dólares. Sou um trabalhador, um empresário, não um delinquente", disse.

A pena para o crime de tráfego de pessoas em El Salvador pode chegar a 12 anos de prisão, além dos agravantes que podem ser considerados em cada caso particular, como a morte, acidental ou não, de alguma das vítimas, entre outros.

Mario diz não compreender porque seu "trabalho" não é "valorizado" como os da ONGs. "Em mais de uma ocasião, corri risco de morrer por proteger os viajantes", garantiu.

"Algumas rotas são mais seguras que novas, mas todas têm seus pontos delicados e temos que ter muito cuidado. Sempre pode acontecer algo imprevisto, por mais que alguém tenha viajado e conheça muito o trajeto", explicou o "coiote".

"Em uma ocasião, chegando à fronteira do México com os Estados Unidos, eu e 45 pessoas que eu estava guiando tiveram que submergir em um lago. Passamos várias horas para não sermos descobertos por uma patrulha da polícia mexicana", recordou.

"São situações difíceis, e eu sempre tenho que cuidar de levar um telefone que funcione bem durante todo o trajeto; é necessário estar comunicando com grupo desde a saída até a chegada", explicou.

O "coiote" afirmou que sempre procura garantir a segurança de seus clientes porque eles são pessoas com famílias que dependem de que eles cheguem ao final da viagem.

O traficante disse ter na carreira mais de 70 viagens bem-sucedidas, mas em apenas quatro ocasiões chegou pessoalmente ao território dos Estados Unidos. Segundo ele, é mais rentável deixar os imigrantes na fronteira, nas mãos de pessoas que os levarão até seus destinos sem nenhum problema.

Mario busca em El Salvador cidadãos de diversos países da América do Sul, enviados por colegas de vários lugares para que eles sigam o caminho até os EUA.

"Não sei o que pode acontecer com eles antes de sua chegada a El Salvador e não sou responsável por isso, mas quando chegam aqui estão em boas mãos", disse o "coiote", que revelou levar entre 30 e 60 imigrantes em cada viagem.

Mario presume ter poucos clientes que foram extraditados, tanto do México como dos EUA, mas se negou a estimar um número. E também rejeitou falar sobre outros tipos de problemas mencionados durante a entrevista à Efe. "Não quero dar explicações, e menos ainda a jornalistas", explicou.

O "coiote" manteve que repassa aos seus clientes todas as informações antes da viagem.

"Antes de começar a viagem, damos todas as informações e respondemos todas as perguntas. Pedimos discrição, então, seria estranho que eu revelasse isso. O grupo de colaboradores do trajeto também está sempre informado", disse Mario.

Ao longo da entrevista, que começou com certa naturalidade, o "coiote" se mostra incomodado e assume uma postura defensiva em alguns momentos, como ao ser perguntado sobre os abusivos cometidos por eles com os imigrantes.

"Dizem por aí que nós abandonamos as pessoas no trajeto, que as maltratamos, que as assaltamos, roubamos. Jamais fiz isso", garantiu.

"Os senhores têm a obrigação de dizer a verdade, de não mentir, de dizer que eles (os imigrantes) estão seguros, são bem alimentos, bem hidratados e bem atendido. Assim espero que seja feito e não coloquem em minha boca coisas que eu não disse", exigiu.

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