Dominada por traficantes, Líbia se transforma em hipermercado do contrabando

Túnis/Trípoli, 19 jun (Minds/EFE).- Na Líbia, país no qual o contrabando foi o modo de vida de famílias e tribos inteiras durante gerações, cerca de 700 mil imigrantes esperam sua oportunidade de chegar à Europa, muitos deles nas mãos de grupos armados que os submetem a condições subumanas inimagináveis.

A cifra pode chegar a 1 milhão, segundo a Organização Internacional de Migrações (OIM), uma das envolvidas no trabalho de melhorar a situação humanitária dos refugiados em um país imerso na anarquia desde a queda do ditador Muammar Kadafi, em 2011.

A instabilidade política e a crise econômica, segundo um desesperado Hasan Dhawadi, que desde o fim de março é prefeito da cidade de Sabratha, na costa da Líbia e a cerca de 65 quilômetros de Trípoli, fizeram com que "dezenas de empresários oportunistas tenham se somado aos traficantes habituais".

O prefeito pediu às famílias que impedissem seus filhos de entrar no contrabando na Líbia, seja de petróleo, gasolina, de refugiados ou de armas.

É quase impossível discernir os limites de um ou de outro, ou até conhecer os vínculos pontuais, porque muitas vezes clãs da mesma tribo se dedicam a cada um dos nichos. Uns vendem armas, outros pessoas, e outros combustíveis.

"Funcionam como os grandes mercados. Aqui está o setor de combustíveis, o de imigrantes, o de armas, o de carros, o de comida", descreveu à Agência Efe um membro de uma agência de inteligência europeia na região.

"É muito difícil combatê-los. Conhecem o terreno, estão há muito tempo no negócio e são bem protegidos por milícias fortemente armadas", destacou.

O contrabando, destacou a fonte consultada pela Efe, é uma "atividade da qual se tem ciência no Sahel desde sempre, inclusive com Kadafi". "A diferença é que antes ela era controlada pelo próprio regime, que se apropriou das rotas", explicou.

Nas inóspitas areias que ligam a Líbia a Sudão, Argélia, Chade e Níger vivem há séculos as tribos "tuareg" e "tebu", seminômades que controlavam as antigas rotas de caravanas para o deserto, até que a cobiça do ditador perverteu a atividade na região.

O chefe da Agência Europeia de Fronteiras (Frontex), Fabrice Leggeri, disse em entrevista à agência francesa "AFP" que as tribos transportam os imigrantes pela parte mais perigosa pela rota líbia, o deserto do Saara.

Assim que chegam ao litoral, cruzar o Mediterrâneo é um trabalho que fica com as redes criminosas. Segundo Leggeri, essas quadrilhas são provavelmente lideradas por pessoas que antes trabalhavam na polícia da Líbia.

Outra fonte da Frontex disse à Efe também ter ciência da participação de ex-agentes líbios no tráfico.

A mesma denúncia foi feita em uma resposta confidencial a uma pergunta do governo da Alemanha, que cita exemplos da cooperação oferecida pelo país. "Fazer reconhecimento das áreas marítimas que serão usadas pelos traficantes, guiar as embarcações que levam refugiados e recuperá-las para reutilizações", de acordo com a agência alemã "DPA".

E, no entanto, a União Europeia parece querer firmar com a Líbia um acordo de controle de fronteiras parecido com o assinado em março de 2016 com a Turquia, que fechou de imediato o caminho de passagem ilegal pelo país até a Grécia.

"Se a UE espera que o frágil governo da Líbia amparado pela ONU aceite um patrulhamento de suas águas, está perseguindo uma ilusão", disse à agência suíça "SDA" um diplomata em Genebra.

A subdiretora da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GITOC), Tuesday Reitano, afirmou à "SDA" que os líbios estão muito mais preocupados com o contrabando de petróleo do que com o de imigrantes.

O chefe da Guarda Costeira da Líbia, coronel Ashraf al Badri, argumenta que os contrabandistas estão melhor equipados do que seus homens. E, em declarações à "DPA", acusa o governo local e a União Europeia de não prestarem o apoio necessário.

"O governo não controla a situação e há cada vez mais milícias que cooperam com os traficantes", lamentou.

A União Europeia se comprometeu a capacitar a Guarda Costeira, mas isso nunca ocorreu, segundo Badri. Ele explicou que tem que confiar em sua boa audição para detectar os barcos usados pelos traficantes, invisíveis no radar. "Falta equipamento de visão noturna", criticou o coronel.

O tráfico ilegal de imigrantes entre a costa da Líbia e a Europa é um negócio que movimentou entre US$ 255 milhões e US$ 323 milhões em 2015, segundo cálculos da GITOC.

Neste ano, a maior parte dos 153 mil refugiados que chegaram à Itália começou o trajeto pela Líbia. Em 2016, após o fechamento da rota pela Turquia, o número chegou a 182 mil.

No fim de maio de 2017, dados do governo da Itália indicam que mais 60 mil imigrantes já chegaram ao país, um crescimento de 29% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A Guarda Costeira da Líbia recuperou ou interceptou mais de 14 mil imigrantes no ano passado, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Seu destino: algum dos 24 centros de detenção para os imigrantes.

"Ainda que dependentes do governo, esses centros eram frequentemente gerenciados por grupos armados, fora do controle efetivo governamental", constatou a Anistia Internacional em seu relatório anual 2016-2017.

"Os imigrantes na Líbia são submetidos a abusos graves por grupos armados, contrabandistas e traficantes de pessoas e guardas dos centros de detenção do governo", denunciou a organização.

Em outubro de 2016, a OIM disse que 71% dos refugiados relatou ter sofrido práticas que constituem crime. Além disso, 49% tinham sido vítimas de extorsão ou sequestro.

Também há centros não oficiais controlados pelas mesmas milícias envolvidas no tráfico. São prisões, segundo o Unicef, onde os refugiados são golpeados, estuprados, privados de comida, extorquidos, forçados a escravidão sexual ou trabalhista.

Em um estudo, o pesquisador Fréderic Wehrey, do Carnegie Endowment for International Peace, avalia que "qualquer tentativa dos europeus de conter a crise migratória no litoral da Líbia está fadada ao fracasso se não forem resolvidos antes os problemas do governo e de segurança no sul do país".

"A luta entre comunidades e grupos étnicos pelo controle das jazidas de petróleo, das rotas de contrabando e da fronteira se misturaram com o conflito político nacional e com a intromissão tanto de atores alheios ao sul como do exterior da Líbia", explicou o pesquisador.

O sul é vigiado de perto pelo marechal Khalifa Hafter, homem forte do leste da Líbia, que enviou seus blindados às portas de Sebha, na rota do tráfico de imigrantes, em uma tentativa de conquistar todo o país.

"Hafter sabe que o sul é essencial. Além do petróleo, quer as rotas de contrabando. Tanto para ganhar como para conter o fluxo de armas e dinheiro que recebem os grupos jihadistas, como o Estado Islâmico e a Al Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI)", explicou à Efe uma fonte de segurança local.

"Não há dados precisos, mas acreditamos que a AQMI é um fator fundamental na venda ilegal de petróleo e combustível no sul da Líbia", acrescentou.

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