Kurz pede modelo australiano para UE: devoluções e campos em Tunísia e Egito

Por Judith Egger.

Viena, 19 jun (Minds/APA/EFE).- O ministro das Relações Exteriores da Áustria, Sebastian Kurz, planeja fechar a rota de emigração mais mortífera do mundo com um plano para levar os imigrantes resgatados no Mediterrâneo a campos na Tunísia e no Egito.

Kurz está tentando capitalizar o sucesso obtido no ano passado, quando negociou com a Turquia uma solução que efetivamente conteve o fluxo irregular de refugiados potenciais e emigrantes econômicos para a Europa pela rota dos Balcãs.

O plano, de conter o tráfico através do Mediterrâneo - onde milhares e milhares de emigrantes têm morrido afogados -, passa em grande parte pelo enfoque adotado pela Austrália para impedir que as embarcações dos traficantes do Sudeste Asiático cheguem à sua costa.

"A única solução para não alimentar o negócio dos traficantes - e acabar com as mortes no Mediterrâneo - é garantir que quem entre ilegalmente não chegue à Europa Central", diz Kurz em entrevista com a agência austríaca "APA".

Com o plano de Kurz, os imigrantes resgatados no Mediterrâneo central seriam levados diretamente a campos na Tunísia e no Egito.

A ideia é lidar com eles antes de atravessarem a fronteira da UE. A única forma de entrar na Europa seria através de programas oficiais de reassentamento.

O plano de Kurz é similar ao adotado pela Austrália para evitar que os barcos de traficantes atraquem em terra firme, aplicado desde 2013.

A Austrália utiliza sua marinha para interceptar no mar as embarcações e qualquer um que tente entrar no país dessa maneira e enviar a um centro de detenção de migrantes em um terceiro país, no seu caso as ilhas de Manus e Nauru.

Mas, além das medidas para a proteção das fronteiras, a Austrália também aumentou o número de refugiados que está aceitando por vias oficiais: neste ano serão 16.250 e 12 mil adicionais provenientes da Síria e do Iraque.

A Áustria não recebeu nenhum dos quase dois mil solicitantes de asilo atualmente na Itália e na Grécia que a UE lhe atribuiu para receber, seguindo um esquema de cotas para a distribuição de 160 mil pessoas.

O país assentou 1.694 dos 1.900 refugiados com status reconhecido dos quais foi incumbido, provenientes de Turquia, Líbano e Jordânia, entre outros, segundo os últimos dados da Comissão Europeia.

O enfoque da Austrália foi condenado por ativistas de direitos humanos, mas o ministro de Imigração do país, Peter Dutton, afirma que salvou vidas e permitiu ao seu governo abrir mais as portas aos verdadeiros refugiados.

"A opinião pública não apoiará um governo que trouxer mais gente com programas humanitários, a não ser que tenhamos o controle das fronteiras", comenta a respeito o ministro austríaco.

Kurz acredita que, com os incentivos adequados da União Europa, tanto a Tunísia quanto o Egito concordariam com seu plano.

Ao seu julgamento, os campos propostos no norte da África seriam um elemento de dissuasão crucial.

O ministro não acredita que tenham que ficar abertos por muito tempo, pois os refugiados e migrantes rapidamente se darão conta de que não entrarão na Europa se embarcarem nos botes dos traficantes.

Kurz ganhou experiência em questões migratórias: em fevereiro de 2016, lançou um controverso esforço que levou a Macedônia e a Sérvia, animadas pela Áustria, a fecharem suas fronteiras aos refugiados, a maioria da Síria.

Após o fechamento das fronteiras dos países ocidentais dos Balcãs, a situação ficou dramática na Grécia, onde ficaram presas dezenas de milhares de pessoas que planejavam continuar essa rota para a Áustria e para a Alemanha.

Naquele momento, alguns observadores previram que em dez dias a Grécia teria 150 mil pessoas presas, mas em pouco tempo o fluxo de migrantes se reduziu consideravelmente.

O acordo que a UE conseguiu com a Turquia algumas semanas depois, em março de 2016 (devolução de migrantes em troca de ajudas de seis bilhões de euros) terminou de fechar a rota.

Kurz explica que o processo transcorreu desse modo porque os que se deslocavam não só procuravam proteção na Grécia, como tinham o objetivo de chegar à Europa Central.

Também acredita que seu plano de estabelecer campos no norte da África terá o mesmo efeito dissuasivo na rota do Mediterrâneo central, utilizada por migrantes da Líbia para chegar à Itália.

Kurz se vê como o homem que pode estabelecer a agenda política da Europa para os refugiados e recebe um apoio crescente à sua linha dura.

"Muitos dos que me criticaram há um ano agora adotaram a mesma linha", se vangloria.

"Quando pedi pela primeira vez que aprendêssemos com a Austrália e a Espanha, houve um clamor (contra) na Áustria e na Europa", lembra.

Kurz, cujo futuro politico está em ascensão, assegura ter do seu lado o chanceler da Áustria, o social democrata Christian Kern.

Em maio, Kurz se tornou líder do partido conservador austríaco ÖVP e os analistas políticos opinam que ele tem chances de chegar ao cargo de chanceler após as eleições de outubro.

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