Médicos cubanos desertam na Venezuela, mas EUA lhes fecharam as portas

Gonzalo D. Loeda e Indira Guerrero.

Bogotá/Caracas, 19 jun (Minds/EFE).- Quando o médico cubano Yosvani Bofill, de 26 anos, chegou a Caracas para participar das missões médicas, só tinha uma ideia na cabeça: desertar e chegar a Bogotá para ser acolhido pelo programa de vistos que os Estados Unidos tinha para seus compatriotas da área da saúde.

"Desde que saí de Cuba tinha a ideia de desertar. Usei a Venezuela como trampolim para emigrar. Desde que vi as missões, vi que era a única forma para um cubano poder sair", comentou à Agência Efe Bofill, para quem seu país é "uma ilha cercada".

Mas ele chegou tarde, apenas cinco dias depois de o ainda presidente americano, Barack Obama, suspender o "Cuban Medical Professional Parole" (CMPP ou Parole), um programa especial de vistos americano para médicos cubanos que desertam das missões no exterior.

Ele, como muitos outros das centenas de desertores cubanos, teve que fazer um trajeto pelo qual se paga entre US$ 600 e US$ 650 a um "coiote" para atravessar a fronteira de Colômbia e Venezuela.

O caminho não é fácil. A passagem fronteiriça de Maicao, na colombiana La Guajira, no limite com o estado venezuelano de Zulia, está no coração de um território desértico e cheio de contrabandistas e grupos herdeiros do paramilitarismo.

A outra opção, por San Antonio do Táchira (Venezuela) e Cúcuta (Colômbia), não é melhor: guerrilheiros, narcotraficantes e ex-paramilitares tomam conta de um território agreste e de selva com um clima sufocante.

Para estes cubanos, escapar da pobreza e da falta de liberdade em seu país natal teve em seguida a dramática situação à qual se viram presos na Venezuela.

"A Venezuela passa de um drama a um filme de terror em um domingo à noite", resumiu Bofill.

Os 20 mil médicos cubanos que integram o programa social da chamada revolução bolivariana, a Missão Barrio Adentro, estão sujeitos a duras normas de comportamento. Eles são proibidos de sair dos municípios onde estão instaladas as suas missões e de dormir fora de suas residências, sendo obrigados a voltar para casa antes das 18h.

Ao chegarem a Bogotá, os médicos denunciam também que vivem em bairros perigosos, que dormem amontoados com outros cubanos e que nos hospitais sofrem assédio de quem, desesperado, pede medicamentos que ficam cada vez mais escassos ou exige uma melhor atenção.

Tanto as autoridades venezuelanas como a embaixada cubana em Caracas, consultadas pela Agência Efe, disseram desconhecer quantas deserções aconteceram no país, mas que não representam um número significativo.

Mas os cubanos entrevistados alegam que são muitos os que deixaram a Venezuela, alguns para voltar a Havana e outros para desertar, especialmente nos últimos três anos depois da morte do presidente Hugo Chávez e do endurecimento da crise econômica venezuelana.

O ex-chefe de um dos contingentes cubanos no oeste venezuelano, que se separou da missão ao se casar com uma venezuelana e prefere falar à Efe em anonimato, declarou que muitos dos colegas que estão agora nos EUA tinham esse plano desde Havana e que muitos outros decidiram seguir o mesmo rumo quando chegaram à Venezuela, quando começaram a sofrer com a crise.

Eddy Gómez Hernández, que chegou ao estado venezuelano de Cogedes com o objetivo de ganhar algum dinheiro e voltar para seu país natal, chegou a Bogotá um dia depois de o programa de vistos americano ser cancelado.

Gómez decidiu iniciar sua carreira na medicina inspirado por alguns dos profissionais do seu bairro. Em Cuba eles "são heróis", ressaltou.

"Primeiramente não tinha ideia de desertar. Deserto por causa de analisar o futuro. Saio de Cuba casado e, duas semanas depois de chegar, soube que (sua esposa) estava grávida", disse Gómez, que trabalhou 14 meses na Venezuela.

Pensar no futuro do filho e na crueldade com a qual seus superiores o trataram, inclusive o impedindo de visitar a esposa sequer para ver o parto do menino, o levaram à aventura de se tornar um imigrante sem documentos.

"Somos fugitivos desde que saímos de casa", lembrou. De fato, ele escapou da estância em que dormia aproveitando que uma companheira foi ao banheiro.

Em Maracaibo, encontrou-se com o coiote "que o ajudou a cruzar a fronteira por Maicao. No caminho, viu grupos armados, contrabandistas e policiais de ambos os países que lhe deram medo.

A maioria dos cubanos relata que é preciso entregar tudo o que se tem aos policiais, especialmente os da Guarda Nacional Bolivariana (GNB, polícia venezuelana) que os param.

E tudo isso para chegar tarde a Bogotá, onde cerca de 180 cubanos exigem uma solução para o limbo migratório em que se encontram.

Bofill e Gómez, no entanto, continuam pensando em um futuro em solo norte-americano. "A esperança é que os EUA nos deem outra oportunidade", disse Gómez.

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