O fechamento espanhol da rota dos 'cayucos'

José María Rodríguez.

Las Palmas de Gran Canaria, 19 jun (Minds/EFE).- Quase uma década antes de a morte de 368 pessoas em um só naufrágio em Lampedusa, na Itália, sacudir as consciências sobre o drama da imigração no Mediterrâneo, as espanholas ilhas Canárias, outra fronteira sul da Europa sofrearam um desafio similar.

Situadas a apenas 100 quilômetros da costa africana, as Canárias convivem com a imigração irregular por mar há 23 anos, desde 1994, quando chegou a Fuerteventura uma balsa com dois jovens saarianos a bordo. Era apenas um sinal do que estava por vir: primeiro poucos por ano, depois dezenas, mais tarde centenas, até chegar a milhares.

Aquelas primeiras balsas estrearam uma rota que nos 11 anos seguintes levaria às Canárias 41.829 pessoas, em sua maioria magrebinos que cruzavam no mar pelo caminho mais curto para as ilhas mais próximas: Lanzarote, Fuerteventura e Grande Canária.

No final de 2005 foi interceptado o primeiro 'cayuco', uma balsa pesqueira típica do Senegal e da Mauritânia preparada para navegar longe em mar aberto, com até 100 pessoas a bordo, e tudo mudou.

Só em 2006 chegaram 31.678 pessoas às Canárias em 515 balsas ou 'cayucos', número nunca visto em um arquipélago de dois milhões de habitantes: superava em sete vezes o de chegadas de 2005 (4.715) e em quatro o de imigrantes que durante aquele ano cruzaram o estreito de Gibraltar (7.500).

A situação era fruto de um coquetel formado pelo reforço das fronteiras em Ceuta e Melilla, conflitos em vários países e a queda das pescas que alimentavam muitas comunidades africanas - e mantinham ocupados os 'cayucos'.

Assim, as Canárias se transformaram na rota preferencial para o novo Eldorado: uma Espanha em plena bonança que precisava de mão de obra abundante na construção e que acabava de mandar uma mensagem que foi ouvida em toda a África, ao legalizar meio milhão de imigrantes em apenas um ano.

Na Espanha se ganhava em duas semanas o que em Mali ou Guiné se conseguia em um ano inteiro de trabalho, destaca um recente relatório do Internacional Peace Institute (IPI) sobre o caso das Canárias (Nova York, 2016).

O poder desse apelo financeiro foi confirmado à Agência Efe por um dos milhares de africanos que entraram em um 'cayuco' com destino europeu em 2006.

"Falava com companheiros que já estavam na Espanha e diziam que ganhavam dinheiro para enviar para casa. Isso encorajava a arriscar tudo", contou Ali Ouattara, que acabou em Fuerteventura após um ano fugindo da guerra civil na Costa do Marfim.

Mas Ouattara descobriu a realidade na mesma noite em que entrou com outras 37 pessoas perto de Tan-tan em um barco com um motor e construção frágeis e com um timoneiro inexperiente.

"No terceiro dia, o barco estava cheio de água. Quase perdemos a esperança de sair dali. Quando chegou o Salvamento Marítimo espanhol, éramos como uma folha flutuando no mar. Nesse instante me dei conta do risco que tínhamos corrido", relatou.

Nos anos seguintes, Ouattara conseguiu reunir legalmente quase toda sua família em Fuerteventura, até que viu negada a permissão para trazer à Espanha outro filho, o mais novo. Desesperado, pagou aos chamados "passadores" para que o fizessem entrar por Ceuta.

O resto da história é conhecido: Ali é o pai de Adou, o menino de oito anos que tentaram fazer passar em 2015 pelo posto de fronteira de Grande Tarajal dentro de uma mala.

"Nunca arriscaria a vida de um filho em um 'cayuco', nunca", alegou Outtara, que jura que não sabia que o colocariam em uma mala.

Este trabalhador marfinense sabe que teve muita sorte. Milhares de migrantes como ele morreram na tentativa. A Organização Internacional para as Migrações calcula que, só em 2006, o ano da crise dos 'cayucos', cerca de seis mil pessoas morreram no mar a caminho das Canárias.

Para cada cinco imigrantes que chegaram à costa, um morreu afogado. Talvez mais, segundo Ouattara, porque "o oceano levou muitos" sem que ninguém soubesse deles.

O relatório do IPI ressalta que nesse drama, ou melhor, na resposta que recebeu, está uma das lições "a aprender do caso das Canárias". A Espanha realizou a operação de salvamento de vidas, primeiro com seus meios próprios, depois com ajuda da União Europeia.

"Prevaleceu garantir o direito mais básico dessas pessoas, a vida", corroborou Juan Carlos Lorenzo, coordenador da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR) nas ilhas, uma ONG que reconhece que "foi feito o que se pôde" para prestar atendimento aos que chegavam.

A Espanha recebeu reforços da Europa através da sua agência de fronteiras, Frontex, mas paradoxalmente a ajuda que fez a balança pesar veio da África: com os acordos de repatriação e, sobretudo, quando convenceu a Mauritânia e o Senegal para que permitissem à Guarda Civil espanhola patrulhar junto com suas polícias suas próprias costas para conter a onda de 'cayucos' antes de eles zarparem.

O resultado foi espetacular: de quase 32 mil imigrantes chegados às ilhas em 2006 (a metade deles, senegaleses), o número de imigrantes caiu para 12.478 em 2007, 9.181 em 2008, 2.246 em 2009 e 196 em 2010, segundo dados da Frontex.

A mesma sequência vista da outra margem mostra que, em 2006, foi possível interceptar e repatriar 4.290 emigrantes quando saíam da costa africana. Em 2007, 8.574; em 2008, 6.659; em 2009, 2.570; e em 2010, 365.

Em 2016, houve 671 imigrantes chegados às Canárias, e outros 113 foram interceptados e reconduzidos.

"Externalizar" as suas fronteiras, inclusive doando navios-patrulha aos países da região, deu resultado para a UE no caso das Canárias e permitiu à Espanha transformar aquele desafio em uma oportunidade para reforçar relações com a África Ocidental, ao complementar os acordos sobre migração com outros de cooperação internacional, explicou Walter Kemp, autor do relatório do IPI.

Isso poderia funcionar no Mediterrâneo? O CEAR lembra que as dimensões do que está acontecendo no mar são muitos maiores, e o IPI acrescenta outro dado significativo: a Espanha teve que negociar com governos africanos em situações distintas, mas nunca com Estados falidos como hoje é o caso da Libia.

O tenente coronel Lorenzo Bárez, diretor do Centro Regional de Coordenação das Canarias da Guarda Civil espanhola, destaca que a grande maioria das pessoas que chegavam às Canárias em 'cayucos' ou balsas era - e continua sendo - de emigrantes que fogem da pobreza, enquanto que no Mediterrâneo há uma grande proporção de pessoas suscetíveis de serem acolhidas pelas leis internacionais de refúgio ou asilo.

O CEAR ressalta também o que significa levar a fronteira da Europa ao litoral da África: são frustrados os direitos de muitas pessoas que poderiam receber proteção internacional, mas que não podem pedir refúgio já que não chegaram à Espanha.

Desde 2008, as entradas de imigrantes nas Canárias por mar se mantêm abaixo de 1.000 por ano. De fato, de 2007 a 2016 chegaram ás ilhas 26.706 imigrantes irregulares. Ou seja, cinco mil a menos em uma década completa do que apenas em 2006.

Navios de Senegal, Mauritânia e Guiné-Bissau zelam para que não zarpe nenhum 'cayuco', com apoio permanente de helicópteros e pessoal de terra da Guarda Civil e da polícia espanholas. E agora as poucas saídas de balsas se concentram na costa do Saara Ocidental.

"O saldo é muito positivo, mas há que ser consciente de que não acabamos com a imigração irregular, só estamos controlando", destaca o oficial da Guarda Civil, enquanto aponta sobre o mapa para as novas rotas abertas no Mediterrâneo.

"Quando se fecha uma via, quase sempre se abre outra", constata.

Para a contenção dos fluxos migratórios por mar para a Espanha teve um indubitável papel fundamental outro fator que ninguém esperava há uma década: a crise econômica.

Em 2006, a Espanha tinha uma taxa de desemprego de 9%. Somente sete anos depois, em 2013, beirava 27%.

Se a mensagem das regularizações em massa na Espanha foi ouvida no seu tempo em toda a África, a do desemprego também se propagou. "Faz tempo que, se alguém liga em seu país para saber notícias de um amigo que está na Espanha, o que ouve é que não tem trabalho", frisa Ali Ouattara.

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