O Triângulo Maldito para os imigrantes na América Central

Cidade do Panamá/Cidade do México, 19 jun (Minds/EFE).- Centenas de milhares de pessoas cruzam a América Central todo ano com a esperança de entrar nos Estados Unidos, na sua maioria imigrantes que fogem da violência e da pobreza no Triângulo Norte e, mais recentemente, vindos de outros continentes e áreas em conflito como Síria e Eritreia.

Com apenas 7,2% da população mundial, Caribe, América Central e América do Norte abrigam quase 25% de todos os migrantes do mundo e experimentam fluxos únicos, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Seis milhões deles fugiram dos três pequenos países do Triângulo Norte: El Salvador, Honduras e Guatemala.

No seu último relatório anual, a Anistia Internacional (AI) descreveu o Triângulo como "um dos lugares mais violentos do mundo; ali matava-se mais pessoas que na maioria das áreas de conflito do planeta (...) A vida cotidiana de muitas pessoas foi prejudicada pela ação de grupos criminosos".

A atividade dos bandos "aumentou junto com a chegada de membros de grupos expulsos dos EUA e com a influência dos cartéis da droga na região", explicou a AI na análise "Lar doce lar".

A extrema violência provocou mais de 15 mil assassinatos em 2016. As taxas de homicídios de El Salvador, Honduras e Guatemala foram de 108, 63,8 e 35 mortos por cada 100 mil habitantes, respectivamente, segundo dados oficiais de 2015.

Nos EUA, um dos países com mais armas nas mãos de civis do mundo, o índice foi de 4,4 em 2014.

O pagamento do dinheiro da extorsão, sustento das "maras" (bandos), representa 3% do PIB de El Salvador, mas o dado beira os 16% se for somado ao que os salvadorenhos gastam em segurança e ao que perdem de receitas porque a violência os impede de trabalhar.

Todo ano, a extorsão chega a US$ 390 milhões em El Salvador, US$ 200 milhões em Honduras e US$ 61 milhões na Guatemala, segundo números da Força Nacional Antiextorsão hondurenha.

"Assassinato, sequestros, ameaças, recrutamento por parte de agentes armados não estatais, extorsão, violência sexual e desaparecimentos forçados: estas são as realidades de (zonas de) guerra e conflitos que os povos desta região da América Central também têm que enfrentar", disse em maio o chefe da missão da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no México, Bertrand Rossier.

No relatório "Obrigado a fugir do Triângulo Norte da América Central, uma crise humanitária ignorada", a MSF exigiu uma "ação coordenada para garantir que estas pessoas em trânsito estão a salvo da violência e da perseguição, e são recebidos com proteção internacional em vez de com mais violência".

No último ano de governo de Barack Obama nos EUA, o Congresso repassou aos governos dos países do Triângulo US$ 750 milhões para que freassem a "migração irregular".



A PERIGOSA VIAGEM AO NORTE

"O que há, sem dúvida, é um aumento nos fatores de motivação na América Central que continuam fazendo com que mais migrantes decidam atravessar nosso país. A grande maioria deles vem ligada a algum traficante", disse à Efe o diretor de Controle Migratório do Instituto Nacional de Migração do México, Mario Madrazo.

Menores que fogem das 'maras' antes de serem recrutados, famílias inteiras que temem pela sua vida, dezenas de milhares de pessoas pagam a traficantes para chegar aos EUA através do México, em um negócio ilegal multimilionário e também sangrento.

No seu Inquérito Conflitos Armados 2017, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) classificou o conflito no México como o segundo mais letal do mundo. Com 23 mil homicídios intencionais em 2016, só foi ultrapassado pela Síria.

"É muito raro que a violência criminal atinja níveis semelhantes aos de um conflito armado. Mas isto é o que aconteceu no Triângulo Norte e especialmente no México ", afirmou o IISS.

Há cifras que falam que, desde 2006, mais de 120 mil migrantes desapareceram no México no seu caminho para os EUA e que nesse trajeto 80% das mulheres e das meninas são estupradas, segundo o ensaio "Tell Me How It Ends" da escritora mexicana Valeria Luiselli.

"Os grupos criminosos estão muito envolvidos no tráfico de migrantes através do México", de acordo com a OIM, que calcula em US$ 250 milhões anuais o volume de negócio que representam o sequestro e a extorsão de migrantes no México.

Entre US$ 6.000 e US$ 20.000 são cobrados por um "coiote" salvadorenho entrevistado pela Efe a cada migrante que leva para os EUA através do México. Com o preço máximo, paga a todos os "colaboradores necessários" e uma dá "garantia" de até três tentativas de completar a viagem.

Uma boa parte dos migrantes percorrem o México em cima de vagões da rede de trens de carga conhecida como "La Bestia", que embarcam em Tapachula e Tenosique (sul).

Das três rotas principais que cruzam o México, uma chega até Tijuana (oeste) e esbarra com o muro que agora Donald Trump quer aumentar, a outra cruza o deserto até chegar a Nogales (centro) e a terceira, a mais curta e perigosa, transita por zonas do crime organizado até Reynosa (leste), onde cruza o rio Bravo.

Os migrantes devem pagar por sua "proteção" às vezes participando do próprio crime.

"Os 'narcos' farejaram um bom negócio com o tráfico (...) E você pode obrigar de mil maneiras um migrante a transportar coisas que eles não querem. Vi surras por causa disso", assegurou à Efe um ex-coiote costa-riquenho.

Muitos não chegam ao destino final: o Projeto Migrante Desaparecido da OIM registrou em 2016 pouco mais de 700 migrantes mortos no seu caminho para o norte: 27 na América do Sul (a maioria na fronteira Colômbia-Panamá), 175 na América Central, 105 no Caribe e 400 na fronteira México-EUA.

Esta linha de fronteira, a mais fatal, registra 6.330 migrantes mortos nos últimos 20 anos.

A maioria dos 955 mortos dos quais se têm notícia no período 2014-2016 sucumbiram nas areias do deserto do Arizona ou nas águas do rio Bravo (chamado rio Grande nos EUA).

Apesar do risco, o fluxo não deixa de crescer desde 2011.

Segundo a OIM, 40% dos imigrantes irregulares nos EUA - perto de 6 milhões de pessoas - nasceram na América Central ou no Caribe.

Sua contribuição é vital para o sustento dos seus países.

Os 2,8 milhões de salvadorenhos que vivem nos EUA enviaram em 2016 remessas que representaram 16,4% do Produto Interno Bruto (PIB) de El Salvador. Em Honduras, com 1,2 milhão de emigrantes, o valor chega a 20% do PIB, US$ 4 bilhões; e na Guatemala, com dois milhões de emigrantes, foi de 18%.



A ANGÚSTIA DA DEPORTAÇÃO

Para os sem documentos, o inferno de chegar abre caminho para a angústia de ser deportado. Só em 2016, os EUA deportaram quase 78.500 imigrantes irregulares para o Triângulo Norte (Honduras, El Salvador e Guatemala), segundo dados oficiais.

O número de salvadorenhos, hondurenhos e guatemaltecos deportados pelo México - que em 2014 iniciou o plano Fronteira Sul de contenção migratória - subiu de 62.788 de 2010 para 141.990 em 2016, de acordo com o Instituto Nacional de Migração.

A Anistia Internacional, que estima que 400 mil migrantes irregulares cruzam o território mexicano todo ano, constatou no relatório 2016-2017 uma cifra "sem precedentes" de solicitações de asilo no México em 2016: 6.898 até outubro, 93% de pessoas do Triângulo Norte, mas apenas 2.162 concessões de estatuto de refugiado.

No mundo todo, as petições de refúgio de salvadorenhos, hondurenhos e guatemaltecos cresceram 597% entre 2010 e 2015, o que demonstra, segundo a AI, uma "mudança muito real nos motivos para migrar", que já não são tanto econômicos, mas de fuga da violência em sociedades sem lei.

A Agência da ONU para os Refugiados (Acnur) calcula que o México receberá 20 mil solicitações de asilo adicional em 2017, número que "é uma clara indicação de que o México já não é só um país de passagem, mas também de destino para os refugiados".

As expulsões em massa de EUA e México evitaram os "indícios de que muitos solicitantes de asilo corriam perigo de sofrer violência extrema em caso de não obtê-lo. Ao serem devolvidas, muitas pessoas retornavam às situações de perigo de morte das quais tinham fugido", denunciou a AI.

É o caso de Juan, um hondurenho que em 2014 se viu obrigado a fugir após sobreviver a dois tiros das "maras", que já tinham matado um dos seus irmãos.

Juan chegou até a Califórnia, nos EUA. "Mas lá os gringos me agarraram e me deportaram em 2015", disse. Desde então, ele tentou se estabelecer em Tapachula (Chiapas, México), onde já tem esposa e filho pequeno, mas foi cinco vezes deportado.

Em Honduras "não há oportunidades de trabalho, os bandos me perseguem (...) por isso decidi que é melhor ir outra vez para Chiapas", disse à Efe antes de fazer sua nova viagem a pé para o norte. "Prefiro emigrar, melhor do que morrer no meu país", assegurou.



MIGRANTES DE ULTRAMAR

América Central e Caribe são tanto zona de origem como de passagem da migração irregular. O Panamá é a porta de acesso. Em 2016, o país interceptou 25.438 migrantes irregulares na sua fronteira com a Colômbia: 10.748 disseram ser do Congo, ainda que se estime que a maioria sejam haitianos que querem evitar a deportação, improvável se fossem congoleses.

Outros 7.431 foram cubanos, 1.868 nepaleses, 628 bengalis, 600 senegaleses, 519 ganenses, e os demais provenientes de países como Mali, Guiné, Eritreia, Somália e Paquistão.

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) para América Central e Caribe, baseado no Panamá, constatou que as redes do tráfico estão levando para a América, através de um cruzamento altamente coordenado que inclui voos em linhas regulares e passagem por pontos cegos de fronteira tanto no mar como em terra, migrantes procedentes da África e do Oriente Médio, que entram no continente pelo Cone Sul.

"A tendência é que recebamos cada vez mais migrantes com este perfil: gente desesperada que foi refugiada e que passou a ser imigrante irregulares", disse à Efe o representante da UNODC na América Central e Caribe, Amado Philip de Andrés.

Segundo o representante da agência da ONU, as redes de tráfico de migrantes estão se autofinanciando com o tráfico de cocaína da América do Sul com destino à Europa.

"Os traficantes vão da Albânia, chegam à Grécia, vão até a África Ocidental, dali para o Cone Sul. Sobem e vão a países como Colômbia e levam cocaína", descreveu Amado.

"A droga é transportada em semissubmersíveis , que custam meio milhão de dólares e são fabricados na Colômbia. Com eles se pode transportar 2,5 toneladas de cocaína do Caribe até a Mauritânia, de onde é transportada pelo Sahel e entra na Europa pela Romênia, explicou Amado.

"É possível ver no litoral da Mauritânia um monte de semissubmersíveis abandonados", declarou o representante da UNODC.

Os migrantes procedentes do Oriente Médio e da África buscam chegar, principalmente, aos EUA e ao Canadá.

Os traficantes cobram deles cerca de US$ 17 mil pelo pacote "completo", que inclui passaporte - autêntico, ainda que com dados falsos obtidos com suborno do registro civil de países como Senegal -, viagem em avião e meios para passar as duas primeiras semanas no país de chegada, geralmente um do Cone Sul.

"Também começam a chegar em voos regulares. Do Senegal vão para Cabo Verde, dali a Fortaleza ou São Paulo, no Brasil. E quem pega os voos? Albaneses, sérvios, sírios, turcos, alguns iraquianos. E começam também a pegá-los eritreus, somalis e cidadãos da África Ocidental", acrescentou Amado.

Trata-se de um negócio que pode gerar cerca de US$ 400 milhões anuais, segundo a UNODC.

Aqueles incapazes de pagar o pacote completo podem pagar à rede com "serviços", de modo que ficam presos nela.

A UNODC prevê que esse fluxo de migrantes extracontinentais que desejam chegar aos EUA aumente. Segundo Amado, "talvez se multiplique por dez nos próximos dois anos", o que pode gerar um "efeito rolha" na América Central com o reforço fronteiriço de Donald Trump.

Com as novas políticas de Trump, "o que se prevê nos próximos 18 meses é que cada vez haja uma tendência" a que os migrantes que transitam ou saem da América Central "não possam ir para o norte, a menos que façam a rota do Pacífico por barco".

A coordenadora do Observatório das Migrações Internacionais em Honduras, Sally Valladares, disse à Efe que quanto mais difícil é cruzar a fronteira dos EUA, o negócio do tráfico de migrantes "se torna mais lucrativo, porque isso implica que tenham que cobrar mais".

E igualmente aumentarão os custos para os países afetados, pela necessidade de mais recursos para proteger suas fronteiras, tudo isso com a pressão adicional da ameaça terrorista, que obriga a dar "atenção muito específica a certas nacionalidades, como sírios e iraquianos", disse.

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