Portugal serve de trampolim para refugiados burlarem sistema de cotas da UE

Lisboa, 19 jun (Minds/Lusa/EFE).- Uma parte dos refugiados reassentados em Portugal em virtude do sistema de repartição por cotas estipuladas pela União Europeia preferiam se mudar para outros destinos, levados pelo desejo de estar perto de pessoas que compartilham da mesma cultura.

A prefeitura de Lamego, no distrito de Viseu, no norte de Portugal, preparou em janeiro um apartamento de quatro quartos para uma família síria de sete pessoas. Duas delas eram crianças doentes que precisavam de transfusões de sangue com frequência.

Dois meses depois, eles tinham ido embora sem avisar.

"Um dia eles desapareceram", disse o prefeito de Lamego, Francisco Lopes, em entrevista à agência "Lusa".

"Acredito que resolvemos decentemente o problema de alojamento, de assistência médica e social, mas essas famílias exiladas têm grande dificuldade para se integrar. Na primeira oportunidade, buscam um lugar onde haja pessoas com as quais guardam relação cultural", explicou o prefeito.

Em abril, o governo português informou que 474 dos 1.255 refugiados que o país recebeu, em sua maioria sírios, tinham deixado os imóveis colocados à disposição. Alguns dos imigrantes foram localizados em outros países, como Alemanha, França e Bélgica, e enviados de volta a Portugal, que assume o custo do retorno.

Lopes afirmou que sua cidade segue disposta a receber refugiados e disse compreender as razões pelas quais algumas famílias decidiram ir embora.

"Sabemos que elas não vêm para ficar e que Portugal é parte de um processo de passagem em busca de seu futuro. Seja para poucos meses, para um ano ou dois, podemos encontrar soluções para ajudar essas famílias a fazerem essa transição", afirmou.

Outro caso parecido com o de Lamego ocorreu em Miranda do Corvo, na região central de Portugal, para aonde 12 refugiados foram enviados. Apenas um deles segue na região. Dez deles se mudaram para diferentes países europeus e o último foi parar no Canadá.

"Estavam claramente de passagem, com a intenção de encontrar parentes ou amigos. Só ficou um com vínculos em Lisboa e com uma minoria muçulmana", disse à "Lusa" Jaime Ramos, presidente da Fundação ADFP, uma organização sem fins lucrativos que ajuda no acolhimento de refugiados no país.

A imigração em massa de 2015 levou a União Europeia a aplicar um sistema de repartição de refugiados que encontrou oposição de alguns dos países-membros e dos próprios beneficiários, que gostariam de se instalar na Alemanha ou na Suécia.

Até o fim de maio, 18.418 solicitantes de asilo tinham sido distribuídos pelos países da União Europeia. No total, 160 mil imigrantes serão realocados pelo sistema, criado para desafogar Itália e Grécia, pontos de entrada dos imigrantes.

Portugal recebeu 1.302 pessoas que estavam na Itália e na Grécia, além de 12 refugiados da Turquia. Sírios, iraquianos e eritreus estão entre as nacionalidades com maior possibilidade de obter status de refugiado na União Europeia.

Alguns recebidos em Portugal, porém, chegaram para ficar. No fim de 2015, a localidade de Penela, no sul de Lamego, acomodou quatro famílias de refugiados, três da Síria e uma do Sudão.

Uma das famílias sírias acabou se mudando para perto, no município de Seia, onde encontraram empregos e fizeram amizade com outras pessoas de origem árabe.

Outras sete famílias, a maioria síria, chegaram no início deste ano a Miranda do Corvo, onde já vivia uma família curda.

"Estamos em uma fase muito inicial, mas a adaptação está ocorrendo relativamente bem", disse Ramos.

O presidente da Fundação ADFP acredita que os refugiados são gratos a Portugal, apesar das diferenças culturais e religiosas que enfrentam, e considera que encontrar emprego para eles será um fator crucial para um acolhimento exitoso.

"Eles gostam da segurança que há em Portugal e da forma como foram recebidos. Pelo menos nesta fase inicial, mostraram que pretendem ficar aqui", indicou.

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