Promotor siciliano luta contra "chefão" etíope do tráfico humano

Lara Sirignano.

Palermo (Itália), 19 jun (Minds/Ansa/EFE).- Um naufrágio perto do litoral da Itália em outubro de 2013 levou um promotor antimáfia siciliano a compreender que por trás dele estava uma rede de tráfico de imigrantes cujo chefe é um etíope o qual ele ainda não conseguiu prender.

Naquele dia 3 de outubro de 2013, 368 pessoas morreram e 20 desapareceram perto da ilha de Lampedusa. Elas tinham fugido do regime de Isaias Afewerki, ditador da Eritreia.

Apesar de as águas estarem tranquilas, um incêndio empurrou os 550 passageiros para um lado do barco, que acabou virando.

Geri Ferrara, um promotor antimáfia de Palermo, se deu conta de que devia lutar contra quem organizava esses trajetos.

"Até então, as investigações sobre as chegadas de imigrantes se limitavam a identificar os traficantes", contou Ferrara em entrevista à agência italiana "Ansa".

"Escutei os depoimentos estarrecedores dos sobreviventes. Me falaram de todas as fases da viagem, começando pela travessia do deserto para chegar ao litoral da Líbia, além da tortura e do encarceramento antes de embarcarem", acrescentou o promotor.

Ferrara organizou uma reunião de várias agências governamentais, na qual verificaram que tinham suficiente material de trabalho para chegar até os traficantes e averiguar quem estava por trás dessas viagens.

O promotor descobriu que um dos principais responsáveis pelo tráfico, o etíope Ermias Ghermay, tinha sido interceptado durante uma investigação contra o narcotráfico feita por outro escritório da Promotoria.

Através de escutas telefônicas, os investigadores identificaram seus "coronéis" e viram que estavam diante de uma organização bem estruturada que administrava tudo, desde o contrabando de pessoas no deserto - onde muitos eram sequestrados e libertados só após o pagamento de um resgate - até sua chegada à Líbia e finalmente a viagem pelo mar Mediterrâneo.

Imediatamente após a tragédia de 2013 e graças ao testemunho de um sobrevivente, a polícia deteve um palestino e um somali que tinham ajudado a organizar a travessia do estreito da Sicília que terminou no naufrágio.

O palestino Attour Abdalmenem foi condenado a 14 anos, e o somali Mouhamud Elmi Muhidin a 30 porque foi, além disso, considerado culpado de estuprar várias mulheres imigrantes.

A investigação obteve sua primeira grande vitória em junho de 2014, com a Operação Glauco, primeira na qual não só foram detidos pequenos traficantes, mas também "coronéis" desta rede.

Ermias Ghermay, apelidado "o chefão de todos os traficantes", continua livre, e é descrito por Ferrara como um homem cínico e rico. Em uma das escutas telefônicas, ouve-se ele comentar: "O barco não chegou. Estão mortos".

Mas houve outra tragédia, esta em abril de 2015, que marcaria um ponto de virada nas investigações. Em um naufrágio no estreito da Sicília morreram cerca de 700 dos 900 ocupantes de um barco com imigrantes.

Só foi possível resgatar do mar algumas dezenas de corpos das vítimas.

Foi então que Weahbrebi Atta, que tinha sido detido na Operação Glauco, decidiu falar.

"Não posso suportar continuar contando os corpos pelos quais sou responsável", disse ele aos investigadores.

A Operação Glauco 2 permitiu identificar 24 suspeitos. Dezesseis foram presos, enquanto que os outros oito, incluindo Ghermay, continuaram foragidos.

Entretanto, o promotor de Palermo, Francesco Lo Voi, reuniu um grupo de especialistas legais para somá-los às investigações sobre o tráfego humano.

Desde 2013, o seu escritório deteve mais de 200 supostos membros desta organização criminosa que lucra com o tráfico de imigrantes.

"Considere o fato de que, para cada barco que zarpa, entre 80.000 e 100.000 euros acabam no bolso dos traficantes", disse Ferrara.

As investigações e detenções levaram, além disso, a que pela primeira vez fossem feitas acusações a um tribunal italiano por "associação criminosa" para tráfico de migrantes.

Pelo seu trabalho, Ferrara foi nomeado especialista do Conselho da Europa, mas ele disse que ainda faltam muitos desafios para serem superados, desde os mais "banais" - como a falta de intérpretes - aos mais complexos - como a cooperação internacional.

Os investigadores que usam escutas telefônicas gravam frequentemente línguas e dialetos africanos diferentes, e é difícil encontrar intérpretes que traduzam, além de que alguns potenciais tradutores se neguem a colaborar por medo.

Quanto à cooperação internacional, às vezes o escritório do promotor conseguiu trabalhar com países com os quais a Itália não tem um acordo formal de cooperação, o que requererá, nas palavras de Ferrara, "um grande esforço e entendimentos concretos".

Um exemplo é o Sudão, que entregou o eritreu Yahdego Mehane, agora é julgado na Itália acusado de ser o "braço direito" de Ghermay.

Mas, em países como a Líbia, onde a situação política é volátil, Ferrara diz que é muito difícil saber qual é sua contraparte e, em outros, leis específicas podem impedir uma investigação.

O promotor citou o caso da Noruega, onde as autoridades têm a obrigação de informar aos suspeitos quando são necessárias cópias impressas de suas conversas por telefone, o que representa "um claro risco" para as investigações.

Há também o problema dos pedidos de ajuda a tribunais estrangeiros quando as escutas telefônicas são feitas fora da Itália, assim como o novo crime de imigração ilegal que acaba de ser caracterizado neste país.

"O migrante que arriscou sua vida e pagou para chegar à Itália fica sob investigação e não pode ser tomado como testemunha, senão precisará de um advogado e poderá invocar seu direito a ficar em silêncio", queixou-se Ferrara.

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