Uma pulseira e uma chave para chegar vivo até o rio Bravo

Hugo Sánchez.

San Salvador, 19 jun (Minds/EFE).- A família inteira de Horacio abandonou El Salvador em 2016 após receber ameaças de morte das "maras", como são conhecidas as gangues locais, e iniciou uma viagem que lhes levou aos Estados Unidos pela rota mais perigosa, a do rio Bravo, na qual uma pulseira e uma chave eram seu escudo contra os traficantes.

Horacio, deportado sozinho em El Salvador aos 19 anos, lembra que em uma quinta-feira entrou junto com seus pais e seus dois irmãos mais novos em um ônibus para a Guatemala para se encontrar com o "coiote" com quem tinham entrado em contato por meio de "conhecidos".

A partir dali, Horacio e sua família se somaram ao fluxo de emigrantes irregulares que cruzam a América Central por caminhos frequentemente controlados por grupos criminosos e carteis da droga.

Dois dias depois, eles cruzaram a fronteira entre a Guatemala e o México escondidos em uma caminhonete e chegaram a Chiapas, no sudoeste mexicano, onde sua vida se reduziu a viajar sufocado em caminhões, se esconder em casas, sofrer de sede e fome.

"Em cada casa à qual chegávamos havia gente de diferentes países, (...) dormíamos no chão sobre colchonetes desgastados, sujos, com insetos, e sempre que nos movimentavam, faziam à noite para passar pelos controles policiais, ainda que na sua maioria estes fossem subornados para deixar o caminho livre", relatou.

"Por centenas de quilômetros viajávamos encolhidos em caminhonetes. Não podíamos parar, só podíamos urinar se tivéssemos uma garrafa, para outras necessidades tínhamos que esperar", acrescentou Horacio, que ainda então tinha a esperança de deixar para trás definitivamente a violência das "maras".

Foi no momento em que uma pedra quebrou o para-brisas do trailer em que viajava com sua família e um revólver surgiu sua frente que Horacio viu claramente seu êxodo se transformar em uma vertiginosa queda ao inferno do tráfico de migrantes.

Surrados, maltratados e saqueados, Horacio, sua família e outros três emigrantes foram levados a uma caminhonete que os afastou da sua rota e com rumo desconhecido.

Um fortuito erro mecânico e a aparição "milagrosa" de uma patrulha policial os livrou dos sequestradores, que fugiram.

A mãe de Horacio, angustiada e chorando pela situação pela qual a família tinha saído do país, disse (aos policiais) que não eles podiam retornar" e pediu "o imenso favor" de deixá-los seguir caminho.

"Um dos policiais disse que nos daria a oportunidade, que não nos mandaria para a Imigração, mas que nos deixaria em um terminal (de ônibus) para que fôssemos aonde tínhamos que ir", lembrou, ressaltando que não foi preciso suborná-lo.

A este terminal chegou outro guia, que os levou a uma casa onde eles passaram vários dias. O motorista que deveria levá-los a Monterrey desapareceu com o dinheiro.

"Eu já não confiava em ninguém (...), não tínhamos comido, estávamos desidratados, havia crianças chorando, era um calvário para nós: vivíamos a agonia de que chegassem para nos sequestrar, que os federais chegassem e nos deportassem", declarou.

Os "coiotes" mandaram um novo guia para que eles reiniciassem o caminho, às vezes em um trailer e durante horas a pé, até chegar a Monterrey, por uma região que é "zona vermelha" pela disputa entre os Zetas e o Cartel do Golfo.

"Eles te dão uma pulseira e uma chave" para cruzar esta área de máximo risco, com as quais o cartel, sob cuja sombra se deslocavam, poderia reconhecê-los.

"Quando não se usa essa pulseira ou não se tem a chave, os próprios traficantes te sequestram e fazem você desaparecer", disse Horacio.

Na noite de uma segunda-feira em Reynosa, já no estado de Tamaulipas, na fronteira com os EUA, foi a última vez que Horacio viu seu pai e seu irmão mais novo. Ambos foram os primeiros a cruzar o rio Grande.

Dois dias depois, após obterem "sinal verde" do chefe da gangue local e fugirem da câmera de um drone vigilante, Horacio, sua mãe e a sua irmã mais nova flutuavam sobre uma balsa nas águas esverdeadas do mesmo rio.

"Quando cruzamos e chegou um agente americano, pensei que tudo terminaria ali, mas não sabia que vinha outra parte mais difícil para mim e minha família", lamentou.

Separado de sua família, Horacio foi levado para uma prisão nos EUA. O resto da família ficou em liberdade "sob palavra" e saberá dentro de um ano se receberá asilo.

Por ser maior de idade, Horacio não recebeu esse benefício e aceitou ser deportado para El Salvador, um mês e meio após ter escapado das "maras".

"Eu poderia estar ali, encarcerado meses e meses sem ganhar nada, e voltei sabendo o risco que me esperava aqui. É difícil estar sozinho, sem a minha família", afirmou Horacio, que tem a esperança de que sua família receba asilo.

O juiz do caso conhecerá sua história e saberá que o pai de Horacio recebeu ameaças de uma gangue em San Salvador, onde tinha uma loja.

A situação se agravou depois que Horacio pregava "a palavra de Deus" na rua para outros jovens perto da sua casa, em outra área controlada pelas gangues, e um grupo de "mareros" o abordou e exigiu que entrasse para a organização.

Por causa da corrupção na polícia e na procuradoria salvadorenhas, como alegou, a família decidiu não prestar queixa, já que sabia de outros casos nos quais as vítimas foram assassinadas, e então viu como saída iniciar a fuga para os EUA.

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