Guterres mantém sua aposta em uma diplomacia discreta

Mario Villar.

Nações Unidas, 20 jun (EFE).- Mantendo sua aposta em uma diplomacia discreta, o secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu nesta terça-feira que a organização não deve necessariamente assumir o protagonismo em todas as crises internacionais, mas apoiar silenciosamente iniciativas com mais possibilidades de sucesso.

"Em um mundo em que as relações de poder não estão claras e em que a impunidade e a imprevisibilidade tendem a prevalecer, vemos que a capacidade de prevenção e resolução de conflitos da comunidade internacional em geral, e da ONU em particular, estão severamente limitadas", admitiu Guterres.

Assim, defendeu que a organização deve se manter em segundo plano em crises como a aberta entre o Catar e seus vizinhos ou em relação à Coreia do Norte, ou apostar em gestões discretas em conflitos como o da Caxemira.

O diplomata português ofereceu nesta terça-feira sua primeira entrevista coletiva na sede da ONU desde sua chegada ao organismo, em janeiro, e respondeu durante 45 minutos às perguntas dos jornalistas.

"Acredito que tanto na resposta humanitária quanto ao abordar as diferentes crises no mundo a ONU foi bastante ativa. Isso não quer dizer que os problemas sejam fáceis de resolver", assegurou Guterres quando perguntado sobre uma suposta falta de protagonismo das Nações Unidas.

O secretário-geral destacou o papel desempenhado pela organização para mobilizar o mundo perante o risco de fome em vários países, para tentar promover o diálogo entre as partes do conflito sírio e para avançar nas conversações de reunificação do Chipre.

Mas também ressaltou que, em muitos casos, as melhores soluções para as crises são as regionais.

Assim, no caso do Catar, Guterres defendeu que a mediação impulsionada pelo Kuwait é a melhor forma de resolver a crise e disse que a ONU não tem influência suficiente sobre as partes para justificar uma intervenção mais direta.

Algo parecido ocorre, ao seu julgamento, no caso da Coreia do Norte e o seu programa nuclear e de mísseis: "Sabemos que há conversações importantes em curso entre vários países com influência (...). Estamos acompanhando, mas até agora não vimos uma oportunidade útil para que a ONU assuma a liderança".

O secretário-geral também revelou que há outros esforços diplomáticos em curso, embora não sejam muito divulgados e prefira não falar muito sobre eles.

Assim, perguntado sobre seus repetidos contatos com líderes indianos e paquistaneses, Guterres deu a entender que está buscando um diálogo entre os dois países sobre a Caxemira, ainda que sem dar detalhes.

"Para alguém acusado de não fazer nada, é um bom número de reuniões", ironizou.

Por outro lado, o diplomata rejeitou as acusações de ter se curvado diante das pressões de países poderosos como Israel e Estados Unidos e usou suas críticas à decisão de Washington de sair do Acordo de Paris sobre o clima como exemplo de sua independência.

"Eu não abdico dos princípios nos quais acredito nem das políticas que apoio", disse, destacando que expressa suas opiniões tal e como as sente.

Perguntado sobre as posturas internacionais do presidente americano, Donald Trump, Guterres advertiu que se o país optar por ignorar assuntos externos, outros ocuparão o seu espaço.

"Não acredito que isso seja bom para os EUA e tampouco acredito que seja bom para o mundo", acrescentou o secretário-geral, que anunciou que na próxima semana viajará a Washington para se encontrar com membros do Congresso americano.

Guterres abordará com eles o orçamento em política externa dos EUA, para o qual Trump propôs fortes cortes que afetariam diretamente as Nações Unidas.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos