Grécia, um país "alérgico" às leis

Miguel Ruiz de Arcaute.

Atenas, 21 jun (EFE).- Existem duas interpretações para o neologismo "nomofobia". A primeira é o medo de sair de casa sem o celular. A outra, muito menos conhecida, tem que ver com a fobia às leis. Enquanto a primeira é um fenômeno global crescente, a segunda define perfeitamente a idiossincrasia social grega.

Talvez não seja casualidade que uma das pessoas apontadas como autora do aforismo "a única regra é que não há regras" seja um grego. Concretamente, o empresário Aristóteles Onassis, uma das figuras nacionais mais importantes do século XX.

Verdade ou não, a frase é aplicável ao cotidiano que impera na Grécia. Porque se pode dizer que, em relação a muitas coisas, no país heleno não há leis. Ou, pelo menos, as que existem não são obrigatórias.

Os exemplos não são poucos e são notados à simples vista. Grande parte dos motociclistas não usa capacete ou o carrega embaixo do braço. Nos bares e restaurantes as pessoas fumam, apesar de uma lei proibir o consumo de tabaco em espaços públicos.

As paredes e os vagões dos trens estão infestados de grafites. Tanto os pontos de ônibus como outros aspectos dos códigos de circulação não são respeitados. E não são poucas as pessoas que não pagam o transporte público.

As situações anárquicas foram como sempre inerentes à natureza grega. "As pessoas tentam justificar suas próprias ações como for, inclusive se não estiverem cumprindo com a lei, e assim se cria uma espécie de efeito em cadeia no qual todos tendem a se comportar como o resto", analisou Yannis Karentelos, professor de Sociologia na Panteion University de Atenas.

Em muitos casos, a mentalidade de não ser menos que o vizinho faz com que as leis não sejam cumpridas e isso acontece porque a mesma foi passada de geração para geração, sem que o Estado tenha feito nada por evitar.

As causas e raízes são de difícil diagnóstico, mas o consenso popular, defendido por Karentelos, aponta em grande medida para os problemas e conflitos que historicamente a Grécia atravessou ao longo dos séculos e que pode inclusive remontar aos tempos da ocupação otomana, entre o século XV e XIX.

As agitadas décadas posteriores à independência (1832) e as contínuas ingerências ocidentais provocaram frequentes períodos de instabilidade que foram assentando os alicerces de um povo que enfrenta o Estado.

De acordo com dito consenso, este terreno fértil fez com que pouco a pouco os cidadãos decidissem não respeitar as leis como resposta à pouca consideração de uma elite governante muitas vezes corrupta para os cidadãos.

Ao mesmo tempo, as autoridades apenas dedicaram esforços a combater estas condutas. As leis existem, mas poucas vezes são aplicadas. Desta forma, a ideia de que as represálias legais são muito pouco prováveis ajudaram a consolidar definitivamente tal forma de agir.

Dessa forma, os grafiteiros acharam um paraíso nas ruas de Atenas devido à escassa probabilidade de multa. O mesmo se pode dizer da lei antifumo e do uso do capacete.

Mas nem todas as leis são medidas com a mesma vara. Enquanto nas relativas ao civismo o Estado olha para outro lado, as referentes à implacável tributação que sufocou o país nos últimos anos foram aplicadas ao pé da letra, pelo menos às pessoas empregadas. Entre os autônomos segue imperando o famoso bordão "feita a lei, feita a armadilha".

Ninguém conseguiu escapar das intermináveis altas de impostos, reduções salariais, criação de novas taxas e congelamento de pensões. Ninguém, com exceção daqueles que fugiram das autoridades por meio da evasão fiscal, seja por cobiça ou por sobrevivência.

Mudar os hábitos que estão enraizados sempre será uma quimera. No entanto, de acordo com o professor Karentelos, as novas gerações se mostram em muitos casos mais respeitosas e temerárias perante as consequências que possam ter alguns comportamentos que infringem a lei.

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