A "tempestade perfeita" que provocou a maior tragédia florestal de Portugal

Paula Fernández.

Lisboa, 25 jun (EFE).- O município de Pedrógão Grande, no centro de Portugal, foi testemunha no sábado passado de uma confluência de fatores que deram lugar a um incêndio que se propagou de forma voraz e foi responsável pela perda de pelo menos 64 vidas.

No domingo pela manhã, quando as chamas seguiam avançando e o balanço de mortos já ultrapassava a barreira das seis dezenas, uma pergunta rondava a mente de todos os portugueses: "Por que?".

A Polícia Judicial apontou nesse mesmo dia que, "com um alto grau de certeza", o incêndio teria sido causado pelo impacto de um raio em uma árvore seca.

Quatro dias depois, o presidente da Liga dos Bombeiros de Portugal, Jaime Marta Soares, questionou esta tese e assegurou ter "convencimento" de que o incêndio se iniciou antes da queda do raio, razão pela qual poderia ter uma causa humana.

Independentemente de como começou o incêndio, o que mais surpreendeu foi a rapidez com a qual as chamas se propagaram por toda a floresta, cercando pequenas aldeias e transformando a estrada nacional 236 em uma autêntica armadilha na qual morreram 47 pessoas, 30 delas dentro de seus veículos.

Após a tragédia, o primeiro-ministro português, António Costa, pediu explicações sobre o ocorrido a três entidades: o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a Guarda Nacional Republicana (GNR) e a Defesa Civil.

Em sua resposta, o IPMA explicou que a propagação excepcional do fogo foi resultado "da conjugação da dinâmica do próprio incêndio e dos efeitos da instabilidade atmosférica", em uma jornada marcada por elevadas temperaturas que alcançaram 40 graus centígrados, baixa umidade e fortes ventos.

Esta confluência de fatores gerou um "downburst", explicou o organismo, um "vento de grande intensidade que se move verticalmente em direção ao solo" e que depois "sopra de forma radial em todas as direções" de modo que pode chegar a ser confundido com um tornado.

Com estas condições, o fogo alcançou a chamada "estrada da morte" de forma "totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina", explicou a GNR (polícia militarizada) na sua resposta a Costa, justificando assim porque não fechou a via ao tráfego a tempo.

Por sua parte, a Defesa Civil reconheceu que se produziram erros no sistema de comunicações que coordena as forças de segurança e emergência desde a tarde de sábado, quando a floresta já ardia, que não permitiram "o fluxo de informação entre os operativos e o posto de comando".

Além das condições meteorológicas, especialistas apontam para outros fatores que influenciaram na violenta propagação do fogo.

"A morfologia da montanha, a quantidade de combustível que existe, a falta de intervenção nas florestas... É o somatório de um conjunto de elementos que facilitam a progressão do fogo", explicou à Agência Efe o diretor do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra, Luciano Lourenço.

A orografia da área, com pequenas aldeias dispersas no meio da floresta, permitiu que fossem rapidamente cercadas pelas chamas.

A legislação prevê que estes tipos de aldeias tenham um cinturão livre de vegetação para evitar que o fogo chegue até as populações, mas "isso não é cumprido", apontou Lourenço.

"Tudo o que é prevenção se vai deixando acontecer... As pessoas só se lembram que existe quando vem o fogo e é preciso combatê-lo. Tudo se centra no combate e, se tivessem sido tomadas uma série de medidas que estão previstas, provavelmente as consequências seriam menores", destacou.

A região contava ainda com uma mistura de pinheiros e eucaliptos, que ardem com muita facilidade. O pinheiro é uma espécie autóctone de Portugal, mas o eucalipto foi introduzido da Austrália e cada vez tem mais peso na floresta lusa pelo seu alto rendimento econômico.

"As pessoas que vivem na montanha estão acostumadas aos incêndios. Mas incêndios tradicionais, sobretudo de pinheiro e matorral. Este incêndio tem muito eucalipto e isso muda bastante o comportamento do fogo. A progressão passa a ser mais rápida e por isso muita gente ficou surpreendida", esclareceu Lourenço.

A surpresa acabou tendo efeitos devastadores: 64 mortos, mais de 250 feridos e dezenas de milhares de hectares arrasados.

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