Fustração toma conta dos jovens de Hong Kong após 20 anos de domínio chinês

Isabel Fueyo.

Hong Kong, 28 jun (EFE).- Após 20 anos do retorno de Hong Kong à China, a cidade se transformou em um paraíso imobiliário para milionários, mas política e economicamente asfixiante para gerações de jovens que veem em perigo suas liberdades e direitos, que não têm paralelo no resto do país.

Enquanto a China soube aproveitar as vantagens de Hong Kong para sua liberalização financeira, a cidade viu a relação com Pequim transformar sua estrutura econômica e social sem beneficiar as novas gerações.

A entrada de capital chinês elevou os preços de terrenos e imóveis a recordes mundiais. A abertura chinesa trouxe uma avalanche de turistas da parte continental disposta a deixar milhares de dólares em bens de luxo e produtos de primeira necessidade importados, o que encareceu os preços para os habitantes locais.

Apesar de Hong Kong contar com uma economia estável, cujo ritmo de crescimento foi de 4,3% no último ano, o salário médio é de apenas US$ 1,4 mil, em uma cidade onde o preço médio do metro quadrado chega a US$ 14 mil.

Alugar uma casa, quanto mais comprá-la, é uma missão quase impossível e uma grande frustração para as novas gerações.

"O nosso problema é que aceitamos como normal o que em outras partes mundo é visto como uma loucura", disse à Agência Efe Tracy Leung, uma mulher de Hong Kong de 31 anos responsável por uma empresa de distribuição de vinho e que acaba de se mudar com seu marido para um apartamento alugado sem a intenção de investir suas economias em uma hipoteca.

"As pessoas da minha idade já começam a mentalizar que não poderão adquirir uma moradia pelo menos até dentro de dez anos, e isso se suas economias conseguirem pagar uma entrada", acrescentou.

Para as novas gerações recém-introduzidas na política, Hong Kong enfrenta um sério problema de distribuição dos seus recursos.

"Só com uma perspectiva pública de redistribuição do terreno e dos lucros de uma forma mais equitativa poderemos fazer frente a este grande problema", explicou à Efe Agnes Chow, ativista e secretária-geral do Demosisto, um dos partidos políticos de tendência radical surgido nos últimos anos em Hong Kong.

Além da insatisfação financeira, novos problemas sociais e culturais são fruto desse fluxo entre fronteiras que reavivou o sentimento pró Hong Kong em uma cidade de sete milhões de habitantes.

"Na realidade, enfatizar a identidade de Hong Kong e o sentimento anti-China não são ideias novas", disse Yau Wai-ching, líder do grupo Youngspiration e um dos dois políticos expulsos no ano passado do Parlamento por expressar seus sentimentos antichineses durante a posse de seu cargo.

O ressurgimento desse sentimento "está sendo cada vez mais forte, exatamente pela intromissão do governo chinês na vida de Hong Kong", apontou Chow.

O descontentamento social e político foram os catalisadores da conhecida como "revolução dos guarda-chuvas", que levou às ruas dezenas de milhares de cidadãos de Hong Kong em 2014 durante quase três meses.

Desde então, os jovens são a maior fonte de preocupação do governo chinês em Hong Kong, acostumado com uma sociedade contestadora, mas não revolucionária.

Para Yau, "a China tentou aprovar alguns projetos que invadem os direitos e o espaço do povo de Hong Kong". Nesse contexto, só uma mudança na soberania da cidade poderia trazer soluções, acrescenta esta política, cujo partido defende abertamente a independência.

Os protestos de 2014 propiciaram a aparição de novas forças políticas de tendência mais radical, algumas inclusive defensoras do independentismo.

Com isso, o leque do bipartidarismo no Parlamento de Hong Kong abriu-se para uma mistura mais ampla de ideologias que colocarão à prova a resistência do governo local - e também a do central - em Pequim, à democratização da cidade. Carrie Lam, eleita chefe do governo da ilha nas eleições de março e que assumirá o cargo no próximo sábado, dia do aniversário do retorno à soberania chinesa, estará à frente do desafio.

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