Amputados na guerra em Mossul mantêm esperança de voltar para casa

Isaac J. Martín.

Erbil (Iraque), 3 jul (EFE).- Ahmed Subhi, de 15 anos, sofreu queimaduras de segundo grau e teve um pé amputado pelo impacto de uma bomba lançada por jihadistas no bairro de Al Rifai, no oeste de Mossul, onde tinha ido buscar comida. Agora, ele se recupera em um hospital em Erbil com a esperança de voltar a andar.

Assistindo a vídeos no celular, o jovem repousa junto a seu pai, Hasan, originário de Tel al Ruman (oeste de Mossul). Sua história começa em janeiro, quando decidiram ir aos acampamentos de deslocados fugindo dos intensos combates travados contra o grupo terrorista Estado Islâmico (EI).

No início de março, receberam a notícia de que seu distrito tinha sido libertado pelas forças iraquianas. Sua casa tinha ficado intacta, e então decidiram fazer as malas de novo e voltar ao lar, ainda que os enfrentamentos continuassem a poucos quilômetros dali.

Sem eletricidade, água e dinheiro, sobreviviam a cada dia tendo que ir ao bairro de Al Rifai para receber comida e água que uma ONG e o exército iraquiano entregavam.

No último dia 3 de junho, Hasan decidiu mandar seu filho Ahmed e seu irmão para receber os alimentos. No entanto, "uma bomba atingiu um edifício que o Daesh (acrônimo do EI em árabe) utilizava como armazém de explosivos", segundo contou o pai à Agência Efe.

A explosão atingiu os meninos e dezenas de pessoas. Ahmed foi ferido gravemente nas pernas e nos braços. Após o ataque, o jovem foi imediatamente levado a uma clínica da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) em Hamam al Alil, cerca de 25 quilômetros ao sul de Mossul.

O adolescente permaneceu lá apenas um dia, pois 24 horas depois já estava na cama do hospital da ONG italiana Emergency, em Erbil, capital da região autônoma do Curdistão iraquiano, onde teve o pé esquerdo amputado para salvar sua perna e poder andar no futuro.

"Não tínhamos que ter voltado nesse momento a Mossul", lamentou Hasan, que agora vê dois problemas pela frente: não poder voltar logo para casa e não ter nem como conseguir água no supermercado.

No hospital, situado no centro de Erbil, Ahmed brinca com as enfermeiras e espera que a prótese chegue em breve para poder voltar a caminhar.

É o mesmo caso de Bilal Hasm, que junto a uma das enfermeiras italianas de Emergency conta sua tragédia com o semblante sério. Mas sempre que pode, sorri quando fala do futuro.

Hasm, de 38 anos, era motorista de caminhão. Em um de seus dias livres, em 8 de abril, saiu do bairro Al Matahin, onde vivia, e foi ao distrito ocidental da Al Risala.

No momento em que ia buscar seu tio, um projétil caiu na estrada, matou seu sobrinho e dilacerou sua perna direita. Depois, foi transferido de um hospital para outro até chegar à clínica da organização italiana, que funciona há 20 anos no Iraque.

"Apenas olho ao meu redor e me dou conta de que estou muito melhor do que os demais", relatou Hasm na área masculina de amputados do hospital, onde abraça uma enfermeira para lhe dizer, entre gargalhadas: "Eu sigo todas as tuas ordens".

Ele espera viajar a Suleimaniya, cidade vizinha a Erbil, onde a ONG tem outro centro para receber os pacientes que deixam o hospital e começam a reabilitação com suas próteses novas.

A maioria da equipe é oriunda da Itália, mas alguns membros vêm de outras partes do mundo, como Sarah Whegner, da Califórnia (Estados Unidos), que explicou à Efe que entre 90% e 95% dos pacientes são de Mossul, onde continua a batalha para expulsar definitivamente os terroristas.

Outra voluntária é Caroline Erhbar, da Suíça, que em três semanas na clínica se mostra surpresa com a energia dos pacientes, a maioria deles ansiosa para voltar para casa.

"Isto aconteceu há poucos meses. Como as pessoas podem voltar a sorrir? A única forma é pensar que trabalharão de novo e que voltarão à escola. Mas não vão esquecer nada do que ocorreu. Nenhum ser humano pode", afirmou à Efe Attilia Serpelloni, coordenadora médica do centro.

"Nunca explico no exterior nada do que ocorre aqui. Na Europa não sabem pelo que estão passando. Veem na televisão, mas não. Eu posso ver uma guerra quando vejo uma perna dilacerada, quando vejo a raiva no rosto dessa gente. Quando chegam sem braços, sem pernas ou sem a metade do rosco", comentou Attilia.

"Nunca nos daremos conta do sofrimento pelo qual passaram em Mossul", concluiu.

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