Liu Xiaobo, o último mártir da Praça da Paz Celestial

Tamara Gil.

Pequim, 13 jul (EFE).- Os tanques de guerra marcaram para sempre aquela fatídica noite na qual Pequim decidiu usar a força de seus soldados para aplacar um massivo movimento pró-democracia em 1989. O chinês Liu Xiaobo, Nobel da Paz em 2010 e falecido nesta quarta-feira, a viveu como protagonista e nunca esqueceu esse massacre.

Escritor, professor, poeta, intelectual, dissidente, Liu tinha muitas facetas, mas morreu sendo, acima de tudo, uma alma livre: um cidadão crítico, sem medo ou inimigos, apesar de viver sob o jugo de um sistema autoritário.

Liu nasceu em uma família de intelectuais e desde muito novo sofreu com algumas das políticas mais controversas do Partido Comunista.

Quando era adolescente, seu pai foi enviado à região da Mongólia Interior para que deixasse para trás a vida burguesa e estudasse do proletariado, durante a Revolução Cultural impulsionada por Mao Tsé-Tung.

O jovem Liu acompanhou seu pai e entrou na vida adulta trabalhando como jornaleiro.

A morte de Mao, em 1976, o permitiu voltar à sua província natal, onde começou a estudar literatura chinesa e, em meados dos anos 80, já era professor em uma das universidades mais prestigiadas de Pequim.

Em pouco tempo, e enquanto os líderes chineses debatiam até onde levar a abertura do país, suas provocadoras - e arrogantes, para alguns - críticas e publicações se tornaram referência e Liu começou a ser convidado por universidades estrangeiras.

Em 1989, estava em Nova York e, quando soube que milhares de pessoas pediam reformas democráticas na Praça da Paz Celestial em Pequim, não pensou duas vezes.

Sem terminar seu trabalho, decidiu se juntar ao movimento e se tornou um dos seus membros mais influentes até o final dos históricos protestos.

"Não podemos permitir um derramamento de sangue. Devemos continuar", recomendou Liu quando os tanques invadiram as principais avenidas da capital chinesa para dispersar os manifestantes, conta um sobrevivente em uma entrevista à Agência Efe.

Sua negociação com o exército para que os estudantes e trabalhadores pudessem deixar o local de forma pacífica salvou muitas vidas, mas Liu não esqueceu as milhares de pessoas que foram assassinadas em outros pontos da cidade, cujo número exato ainda é desconhecido.

Segundo seus entes mais próximos, foi nesse momento que o intelectual amadureceu e se tornou um "ativista político", de caráter extremamente tolerante e pacifista.

Sua participação nos protestos lhe rendeu a primeira condenação, de dois anos, e em 1996 veio a segunda, de três anos, em um campo de reeducação trabalhista, onde realizou seu casamento com sua segunda esposa, a poetisa Liu Xia, que, segundo ele mesmo disse em repetidas ocasiões, era a luz que sempre lhe guiou.

Apesar de sofrer duas décadas de constante vigilância policial, o intelectual não abandonou seu propósito e isso lhe valeu sua última e mais dura condenação, em 2009.

"Não tenho nem inimigos nem ódio", proclamou em um escrito pouco antes de ser sentenciado a 11 anos de prisão por "incitar à subversão", uma pena que estava prestes a terminar de cumprir quando em junho foi internado por conta um câncer no hospital onde morreu hoje sob estrita vigilância, sem que as autoridades lhe concedessem a liberdade.

O único crime que Liu cometeu, dizem seus próximos, foi "escrever palavras em um papel" defendendo reformas democráticas.

Assim se referem à chamada Carta 08, um manifesto político inspirado na Carta 77, que plantou a semente da abertura tcheca e que pedia a Pequim respeito aos direitos que constam na Constituição, entre eles a liberdade de expressão, além outros não incluídos, como o fim de um regime de partido único.

Liu, uma pessoa tranquila e franca, seguidor inveterado do futebol e fã incondicional de Lionel Messi, estava convencido de que a mudança na China viria de dentro e nunca optou pelo exílio.

Sua perseverança por uma China democrática e livre o fez ganhar o Nobel da Paz em 2010, um prêmio que recebeu "atrás das grades", como o pacifista Carl von Ossietzky, preso pela Alemanha nazista e o último Nobel da Paz falecido sob custódia até agora.

Na prisão, Liu chorou ao ser informado do prêmio e o dedicou aos mártires "de Tiananmen", sem prever que, quase 30 anos depois, ele também se transformaria em um deles.

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