Camponeses recorrem ao café para superar dor das minas terrestres na Colômbia

Miquel Vera.

El Tambo (Colômbia), 15 jul (EFE).- O jovem Wilmer Galindez perdeu o pé direito na explosão de uma das milhares de minas enterradas no solo colombiano, um fato que reforçou sua decisão de abandonar os cultivos de coca para abraçar o trabalho no setor cafeicultor do país.

Na madrugada de 18 de fevereiro de 2010, Wilmer caminhava por uma trilha do departamento de Cauca (sudoeste) quando pisou em uma das minas instaladas por grupos armados na área pela qual transitava, um acidente que mudou sua vida.

"Imediatamente escutei uma explosão e um zumbido muito forte que me deixou atordoado, mas não perdi os sentidos nem senti dor pela adrenalina", explicou à Agência Efe o jovem, que no meio da escuridão não se deu conta da magnitude do acidente até acender um isqueiro e descobrir que a explosão da mina tinha dilacerado metade do seu pé.

A Colômbia é, depois do Afeganistão, o país mais afetado pelas minas, que desde 1990 causaram mais de 11 mil vítimas diretas entre militares, policiais e civis, segundo dados oficiais.

"Foi um sofrimento longo. Era muito cedo, e fiquei sozinho até receber os primeiros socorros, depois de andar ferido por umas seis horas, me arrastando até o lugar de onde me levaram para o hospital", relatou Wilmer, que após o acidente ficou internado em um centro médico público de Cauca por um mês.

Após passar por várias cirurgias, o jovem se dedicou de corpo e alma a sua recuperação, inclusive construindo uma prótese caseira que lhe permitiu voltar ao trabalho e dançar salsa em muito pouco tempo.

"Após um acidente com uma mina, o processo é muito complicado, se você não tiver força interior, cai, mas a vida continua, e enquanto houver motivos para se levantar, você pode", comentou o agricultor.

Este trágico fato, que poderia ter tirado a vida de Wilmer, confirmou sua decisão de abandonar o trabalho nos campos de coca para se dedicar à colheita de café através da Associação de Cafeicultores Afetados pelas Minas (Asodesam), um coletivo que produz cerca 50 toneladas do grão por ano.

Este grupo, cuja sede fica no município de El Tambo (Cauca), recebe apoio da empresa italiana Illycaffè, que além de comprar seus grãos contribui com donativos em função da produção.

"As diferenças entre a coca e o café são muitas. Para começar, a coca é ilícita, e sempre há o medo de a polícia ou o exército te pegarem. Além disso, com o café não é preciso pagar imposto à guerrilha. Com o processo de paz, o preço da coca caiu muito, porque já não tem apoio da guerrilha", ressaltou Wilmer.

O departamento de Cauca, região agrícola do sudoeste da Colômbia, foi um dos mais afetados pelas minas terrestres instaladas por guerrilhas como as Farc, que já assinaram um acordo de paz com o governo.

Neste sentido, o café incentivou os diferentes grupos armados do país a abandonar o uso das minas terrestres, já que estas "afetam, acima de tudo, a população civil, as crianças e os camponeses, e não os que querem combater".

Paralelamente, Wilmer advertiu que o governo colombiano abandona as vítimas das minas, que passam por todo tipo de processo burocrático para obter uma indenização que, em muitos casos, chega apenas a US$ 3 mil.

Além disso, o jovem criticou que tal ressarcimento deve ser solicitado nos primeiros meses após o acidente, mesmo que as vítimas ainda estejam se recuperando física e psicologicamente da explosão e das mutilações.

"O tempo expira antes de terminar a recuperação. São impedimentos do Estado para fugir da responsabilidade que eles têm", acrescentou Wilmer, que ressalta a coragem dos camponeses colombianos.

Estes, além de sofrerem em silêncio as consequências do conflito armado, levam agora adiante o processo para substituir a coca por café, um cultivo muito menos rentável, mas desamarrado da dor física e espiritual que a Colômbia sofreu durante as últimas cinco décadas. EFE

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