Comerciante tenta retomar vida em antigo território do califado jihadista

Jorge Fuentelsaz.

Qaraqosh (Iraque), 24 jul (EFE). - Quando os jihadistas do Estado Islâmico (EI) invadiram a cidade de maioria cristã de Qaraqosh, em 2014, eles queimaram a loja de bebidas destiladas de Jadar Binhar e ameaçaram decapitá-lo. Hoje, ele volta a atender no seu povoado todos os que quiserem comprar uma bebida alcoólica.

Entre garrafas de uísque, vodca e arak - uma aguardente de uva tradicional em vários países do Oriente Médio -, Jadar reconhece que tem medo de que a qualquer momento alguém venha e ataque sua loja, mas, com um sorriso discreto, ele comenta que tudo está nas mãos de Deus.

"Abrimos a loja para que o mundo veja que não temos medo, para que todo mundo volte, sabe?", diz ele, atrás de uma pequena estante da loja, que recebe um dos primeiros clientes do dia para levar uma caixa de cerveja, vendidas a US$ 1,50 cada (pouco menos de R$ 5).

A sua história é a mesma que a dos mais de 50 mil habitantes de Qaraqosh, que fugiram por causa da chegada do EI em 2014 e que dias antes tinha ocupado Mossul sem qualquer dificuldade.

"Saímos com nossas mulheres e filhos sem levar nem mesmo as roupas", recorda ele, ao lado do irmão Raad, que também trabalha no local, situado na principal rua que leva a Mossul.

Depois da fuga em massa, os jihadistas ainda levaram dois dias para chegar a Qaraqosh, onde, por enquanto, só 500 famílias retornaram, apesar de o EI já ter sido expulso. O motivo é o fato de os radicais terem queimado a maioria dos edifícios antes de irem.

Jadar diz que algumas pessoas saquearam a loja e o estoque antes da chegada terroristas do califa Abu Bakr al Baghdadi, que queimaram o restante das mercadorias. O local ainda tem cheiro de álcool e as paredes e o teto estão pretos. No chão, amontoados de garrafas devoradas pelo fogo da lei medieval imposta pelo EI nos territórios que dominou.

"Dois ou três dias depois de nós irmos embora, já estávamos em Erbil, me ligaram e disseram: 'a falta de fé está em você. Vamos te encontrar e cortar a sua cabeça'. Então queimaram e destruíram a minha loja", detalha.

Raad interrompe a conversa para lembrar que o "projeto é difícil, que o álcool continua sendo um perigo", mas, da mesma forma que seu irmão, garante: "Também queremos dizer que, apesar disso, estamos aqui, as pessoas podem voltar".

Jadar conta, no entanto, que o que mais pesou para o seu retorno foi a falta de dinheiro. Já eram dois anos sem trabalhar e gastando as economias para pagar aluguel.

"A vida estava difícil. Ficamos dois anos sem trabalhar e o dinheiro que restava foi no aluguel. O que íamos fazer? Eu e meu irmão vendemos os nossos carros para pagar despesas", diz.

Com os produtos queimados, eles perderam quase US$ 80 mil e ainda devem US$ 20 mil a vários fornecedores que exigem o pagamento das dívidas.

Por tudo isto, ele e seu irmão reabriram no dia 27 de junho a loja de licores "Armazém do Rani" e estão pensando em inaugurar nos próximos dias um espaço maior no mercado de Qaraqosh.

Em um país tão castigado pelas guerras e pelo terrorismo, Jadar explica que não é a primeira vez em que se vê obrigado a refazer sua vida. Em 2003, pouco antes da queda do regime de Saddam Hussein, após a invasão dos Estados Unidos, sua loja foi roubada e incendiada em Basra, no sul do Iraque.

Ele então decidiu retornar à sua cidade natal, Qaraqosh, para continuar com o comércio em um lugar mais seguro, o mesmo que foi destruído pelos jihadistas 11 anos depois.

Agora, ele mostra orgulhoso a sua pequena, mas vistosa loja e as bebidas que expõe organizadamente nas prateleiras e na ampla vitrine. Apesar dos pesares, está convencido de que o "Armazém do Rani" caminhará bem, mesmo com o risco que acarreta ter um comércio de bebidas em um país onde a presença dos radicais ainda não foi totalmente erradicada.

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