Jornalistas do "Cumhuriyet" rejeitam acusações de terrorismo na Turquia

Ilya O. Topper.

Istambul, 24 jul (EFE).- Os jornalistas e funcionários do jornal opositor "Cumhuriyet" defenderam nesta segunda-feira sua inocência e rejeitaram as acusações de "terrorismo" contra si no primeiro dia do julgamento que está sendo realizado no Palácio de Justiça de Istambul, na Turquia, diante de um grande número de observadores e simpatizantes.

As portas do tribunal foram abertas a partir das 10h locais (4h de Brasília), mas, no início da tarde, apenas dois dos 17 acusados tinham conseguido prestar depoimento.

Cinco dos acusados estão em liberdade condicional, dez estão mais de oito meses na prisão e outro, o jornalista investigativo Ahmet Sik, cumpre 206 dias de detenção, enquanto que Can Dündar, ex-redator chefe do jornal, está sendo julgado à revelia, pois o mesmo está exilado na Alemanha.

A promotoria está pedindo penas de entre 8,5 e 43 anos para cada um por "colaboração com uma organização terrorista", mas sem esclarecer quais são esses grupos armados.

No texto, a acusação atribui aos acusados vínculos tanto com a guerrilha curda como com grupos de extrema-esquerda e, sobretudo, com a organização do clérigo islamita Fethullah Gülen, que o governo turco considera como o mentor da tentativa fracassada de golpe de Estado de 15 de julho de 2016.

O colunista Kadri Gürsel, um dos jornalistas mais conhecidos da Turquia, está em prisão preventiva desde outubro e se defendeu da acusação de vínculos com a organização de Gülen, enfatizando que já havia advertido contra o perigo desta rede religiosa quando ela ainda era chamada respeitosamente no governo de "a comunidade".

Gürsel assinalou que a acusação se baseia, sobretudo, no fato de ele ter recebido telefonemas de 112 pessoas que a promotoria considera integrantes da organização de Gülen, por terem instalados em seus celulares o aplicativo de mensagens Bylock, que teria sido supostamente desenvolvido para o entorno de Gülen e conta com cerca de 215 mil usuários na Turquia.

O jurista Akin Atalay, presidente da junta diretora do "Cumhuriyet" e que está desde outubro em prisão preventiva, rejeitou de forma enfática a acusação de vínculos com o grupo de Gülen.

Atalay admitiu que o "Cumhuriyet" publicou várias vezes anúncios do Bank Asya, o banco-símbolo do império econômico de Gülen até sua intervenção em fevereiro de 2015, mas reiterou que o mesmo foi feito, e com muito mais frequência, pelos maiores jornais pró-governamentais do país.

Até o outono de 2013, a organização de Gülen estava estreitamente ligada ao Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), que governa a Turquia desde 2002, e com quem compartilha a mesma ideologia islamita.

Durante anos, os integrantes desta rede religiosa se ajudavam mutuamente para conseguir cargos importantes na Administração Pública, no Poder Judiciário e entre as forças de segurança, contando com o respaldo do governo, uma tomada lenta de poder que foi denunciada em 2011 pelo jornalista Ahmet Sik no livro "O Exército do Imã", que foi proibido antes de ser publicado.

Sik foi detido em março de 2011 e passou 12 meses em prisão preventiva, acusado por promotores que hoje estão no alvo da Justiça turca por fazerem parte da rede de Gülen, o que não evitou que o jornalista se sentasse novamente no banco dos réus, acusado agora de colaborar com a organização que tanto criticou.

"O julgamento tem duas finalidades: silenciar o jornal Cumhuriyet e dar um aviso aos que seguem escrevendo sem medo", resumiu o jurista acusado Akin Atalay.

Numerosos observadores tanto de sindicatos e partidos turcos como de organizações de defesa do jornalismo, como a Repórteres Sem Fronteiras, o PEN Club, a Federação Europeia de Jornalistas (EFJ, sigla em inglês) e o International Press Institute (IPI), descreveram o processo como um ataque contra a liberdade de imprensa na Turquia.

Também esteve presente no julgamento Harlem Desir, representante para a liberdade de imprensa da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE, sigla em inglês).

"Peço à Turquia que retire as acusações, liberte todos os jornalistas encarcerados por seu trabalho e inicie reformas muito necessárias para proteger a liberdade de imprensa no país", disse Desir hoje em um comunicado.

O jornal "Cumhuriyet", fundado em 1924 e com tiragem de 40 mil exemplares, não figura entre os jornais mais lidos na Turquia, mas sim entre os mais prestigiados. O veículo de comunicação e seu ex-redator-chefe Can Dündar foram premiados no ano passado com o Right Livelihood Award, também conhecido como o "Prêmio Nobel Alternativo".

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