Jihadistas estão no ponto de mira do franco-atirador espanhol em Al Raqqa

Susana Samhan.

Beirute, 27 jul (EFE).- Olhar, mirar e atirar é a rotina de Arges Artiaga, o franco-atirador espanhol que luta contra o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) em Al Raqqa, na Síria, cidade que é considerada a "capital" do califado autoproclamado pelos radicais.

Artiaga, que na verdade é o pseudônimo que ele usa para se identificar, está há dois meses e meio no norte do país lutando contra os jihadistas nas fileiras das Forças da Síria Democrática (FSD), uma aliança armada liderada por milícias curdas e que conta com o apoio dos Estados Unidos.

"Estou aqui com outro britânico, nos encontramos diante do Daesh (acrônimo em árabe usado para chamar o Estado Islâmico de forma pejorativa), que está a cerca de 200 metros de distância. Somos os únicos estrangeiros nesta frente, não sei nas outras", explicou Artiaga em uma conversa com a Agência Efe pela internet.

Esta não é a primeira vez que o combatente nascido na região da Galícia, de 43 anos, viaja para a Síria. Ele esteve no país em duas outras ocasiões com os grupos curdos - "quase um ano e meio no total" - em lugares como Tel Tamr, na província de Al Hasaka, e na represa de Tishrin, perto de Kobani, na região de Aleppo.

Sua tarefa em Al Raqqa consiste "em avançar até a linha de frente, um dia sim e outro não, para buscar uma boa posição e fazer seu trabalho", como contou.

O espanhol revelou que se deparou algumas vezes e pôde conversar com combatentes do EI: "Minha antiga unidade capturou vários prisioneiros", disse.

"Há de tudo, desde o típico que lhe diz que se viu obrigado (a se juntar ao EI) pelas mais variadas desculpas e foi enganado até o que considera que o que fez é normal e que tem todo o direito de fazê-lo", revelou.

Apesar de ser franco-atirador das FSD, o espanhol afirmou que "jamais" confessará se matou alguém, e que isso fica entre ele o "Criador" - apesar de Artiaga garantir não ser uma pessoa religiosa. "Não acredito em dogmas políticos e religiosos", contou.

Antes de ir para a Síria, ele trabalhava com "um pouco de tudo". "A economia espanhola, você sabe como é, né?", afirmou, em tom crítico, se referindo aos problemas que o país enfrentou.

Artiaga decidiu deixar para trás namorada, família e amigos nem tanto pela ideia de lutar contra o EI, mas com a vontade de ajudar as pessoas. O estopim que o fez viajar foi o massacre dos yazidis no Iraque.

"Fiquei muito tocado e, vendo que nenhum governo movia um dedo após o ataque a Kobani (na Síria), decidi fazer algo", lembrou Artiaga, que custeia suas próprias despesas.

Há dois anos e meio, o franco-atirador entrou em contato com as forças curdas através da internet e, apesar de não poder dar detalhes sobre como entrou no território sírio por questões de segurança, contou que não foi através da fronteira com a Turquia.

As viagens também lhe trouxeram problemas com as autoridades espanholas, mas ele nunca foi detido. "Tentaram me julgar me acusando de 28 homicídios, de participação em um conflito estrangeiro, de usar armas de guerra...", enumerou.

"A melhor é esta, colocar em risco a neutralidade da Espanha. Podemos explicar ao Daesh que somos neutros", acrescentou, com ironia.

Artiaga disse que em muitas ocasiões se deparou com situações perigosas que o fizeram pensar em voltar para casa, mas que sempre aconteceu algo que o fez ficar.

"Simplesmente não posso esquecer e ir embora do nada, perdi muitos amigos aqui, o sangue deles está nesta terra, assim como o meu e minhas lágrimas", refletiu.

"Além disso, continuo a ter amigos aqui, que são como uma família. Vi o que o Daesh faz com mulheres e crianças, esta também é minha terra agora", ressaltou.

Há pouco tempo, Artiaga perdeu quatro amigos "de uma tacada só, com um carro-bomba" que explodiu enquanto eles tentavam desativá-lo.

Além disso, o franco-atirador ficou ferido há um ano e meio por um estilhaço que atingiu a mira telescópica de sua arma e explodiu em seu olho. Atualmente, ele está recuperado deste ferimento após receber tratamento em Al Hasaka e na Espanha.

Apesar de arriscar sua vida todos os dias, Artiaga permanecerá em Al Raqqa até o fim.

E no dia em que o EI desaparecer? "Suponho que mudarei de rumo", disse o franco-atirador, enquanto ria.

"A verdade é que não tenho ideia de como vou voltar a ter uma vida normal depois disso", destacou.

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