Chavistas controlam de perto fidelidade de eleitores com "cartão da pátria"

Héctor Pereira.

Caracas, 30 jul (EFE).- A poucos metros das mesas de votação, chavistas controlam por meio de um sofisticado sistema digital a fidelidade dos eleitores que foram às urnas neste domingo para escolher representantes da Assembleia Nacional Constituinte.

Membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), em estruturas com toldos vermelhos instaladas nos arredores e até dentro dos centros de votação, controlam os cidadãos que participaram do pleito, um registro paralelo ao feito pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

A Agência Efe pôde constatar a instalação desses "pontos vermelhos" dentro e fora de dezenas de seções eleitorais no oeste de Caracas, uma região tradicionalmente chavista e que foi amplamente às urnas. No leste da capital, onde a oposição é maioria, quase não se observa filas para votar.

O sistema de vigilância é conhecido na Venezuela como "carteira da pátria" e foi criado no início do ano pelo presidente do país, Nicolás Maduro, para fazer um registro das necessidades socioeconômicas dos inscritos - cerca de 15 milhões de pessoas - e dos benefícios que recebem da chamada Revolução Bolivariana.

Maduro, principal defensor da Assembleia Nacional Constituinte, pediu que seus simpatizantes passem pelos "pontos vermelhos" após votar para que os QR codes de seus "cartões da pátria" sejam escaneados. Assim, o governo poderá saber que eles apoiaram a proposta do presidente para modificar a Carta Magna do país.

Mayeli Sanz, porta-voz do PSUV em Mamera, explicou à Efe que o "ponto vermelho" dessa região começou a funcionar na mesma hora em que as urnas foram abertas, em tempo para também registrar os votos.

Ela afirmou que os chavistas que atuam no local estão "devidamente autorizados" a orientar os eleitores sobre quem e como votar.

Maduro foi o primeiro eleitor do dia e o primeiro a passar sua "carteira da pátria" no sistema instalado nos smartphones de milhares de pessoas a serviço do partido governista.

O processo foi transmitido ao vivo pela emissora estatal "VTV", mas um erro pegou o presidente de surpresa. Quando Maduro passou seu cartão, a tela do celular mostrou a seguinte mensagem: "essa pessoa não existe ou a carteira foi cancelada".

O erro gerou "memes" automáticos na internet e uma série de teorias sobre fraude da oposição e das redes sociais.

"Onde há a mão humana sempre há o erro. Essas falhas foram posteriormente solucionadas", disse Mayeli, reconhecendo que o problema já tinha ocorrido no seu "ponto vermelho".

Quando as falhas persistem, explicaram à Efe vários coordenadores dos "pontos vermelhos", os chavistas fazem um registro manual dos eleitores, uma modalidade que já tinha sido implementada em dezenas de centros de votação do oeste de Caracas.

Na seção eleitoral de Maduro, os membros do "ponto vermelho" corrigiram o problema ocorrido com o nome do presidente. O coordenador do local, Ender Urrutia, afirmou que a fila de pessoas esperando para registrar suas carteiras era um "sinal de confiança que o povo tem no governo e nas políticas sociais".

"Isso é um puxão de orelhas para atendermos mais ao povo", disse o coordenador, após afirmar que o país enfrenta uma grave crise econômica causada por "ataques imperiais" que, na visão de Urrutia, não apresentaram diminuição no investimento social.

O coordenador afirmou que esse registro é "voluntário", apesar de ser realizado em frente aos centros de votação. As pessoas que não quiserem passar pelo registro, garantiu Urrutia, não sofrerão represálias por parte do governo de Maduro.

"Nós, no final, poderemos dizer às pessoas que têm sua carteira da pátria e que acreditam em nós que elas participaram de um processo eleitoral", destacou.

A tecnologia em questão é a principal ferramenta de Maduro para promover a participação nas eleições sem importar quem receba o voto, já que todos os candidatos são ligados ao chavismo.

No entanto, o presidente precisa de uma grande participação nas urnas para dar legitimidade ao polêmico pleito.

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