Futebol faz refugiados africanos ganharem visibilidade em Hong Kong

Tamara Gil.

Hong Kong, 31 jul (EFE). - O time de futebol mais impressionante de Hong Kong não tem sequer um jogador asiático e quase nenhum tem permissão para trabalhar. Eles são o All Black FC, uma equipe formada por refugiados africanos que, graças ao esporte, deixaram de ser invisíveis.

Na rua, eles ainda são chamados de "hak gwai", literalmente "fantasma preto" em cantonês, mas no campo tudo muda. Lá, eles brilham.

"Quando os chineses veem os africanos, eles pensam 'estão muito em forma, são muito fortes'. Quando jogam contra a gente eles tentam elevar o nível. Geralmente, temos um bom ambiente", conta Darius, com um sorriso no rosto, um dos 30 africanos que treinam três vezes por semana.

O All Black é um time único em Hong Kong. Formado majoritariamente por africanos que fugiram de seus países por diferentes motivos - que não querem falar -, eles estão na região em busca de asilo.

A equipe foi criada há um ano por Koya Medard Privat, um centro-africano que mudou toda a sua vida por amor. Em 2008, em uma viagem a Hong Kong ele se apaixonou e três anos depois decidiu ir morar definitivamente nessa região e formar família.

"Tive uma difícil e dolorosa experiência para me integrar à sociedade de Hong Kong. Depois disso, disse para mim mesmo que tinha que fazer algo para ajudar meus irmãos africanos", explicou o fundador do time, sobre os obstáculos que enfrentou para conseguir a licença de trabalho.

Muitos esperam durante anos uma resposta do governo à solicitação. Conforme dados oficiais, até o mês passado, mais de 8 mil petições estavam pendentes e, entre 2009 e março deste ano, apenas 83 casos tinham sido aprovados por Hong Kong.

"O sistema faz com que eles tenham que trabalhar ilegalmente e com risco de ser explorados", advertiu Annie Li, diretora de pesquisa e política da ONG Centro de Justiça de Hong Kong, que trabalha para proteger quem emigrou de maneira forçada e está em situação de vulnerabilidade.

A partir do momento em que a pessoa dá entrada na solicitação, o governo concede ajuda de US$ 150 (R$ 470) para alimentação e US$ 200 (R$ 630) para moradia.

"Mas esse dinheiro não dá nem para alugar um quarto, em uma das cidades mais caras do mundo", revelou Li.

Diante dessa situação e com a forte discriminação racial nesta e em outras partes da Ásia, Koya decidiu apostar na força unificadora do futebol. Com a ajuda do amigo Bidjoua Eustache-Hauvelith e o apoio financeiro da unidade do Chelsea no local, onde o centro-africano foi trabalhar, em 2016 ele começou a juntar no campo cidadãos de Somália, Nigéria, Camarões e Gana.

"A maioria deles só dormia, acordava e voltava a dormir. Hoje, sabem que têm que levantar e vir treinar", destacou Hauvelith, que evita dizer sua origem.

No início, não foi fácil se profissionalizar. Com características e línguas diferentes, os jogadores demoraram a encontrar uma harmonia, mas hoje competem contra equipes da liga de Hong Kong - sempre em amistosos, porque que não podem jogar profissionalmente.

Propostas para assinar contrato com outros times alguns deles já receberam, mas não foi possível concretizar pela falta de documentos.

"Sentimos pressão em casa. Aqui estamos mais relaxados e temos ajuda para nos integrarmos. É difícil quando você está em um país estranho. Você sempre sente que te falta algo, mas através do esporte acredito que temos uma oportunidade", pondera o jovem Sam, da República do Congo.

Salomon, amigo de Sam, concorda. "Claro que existem pessoas negativas, algumas são bastante racistas, mas eu ignoro", afirmou o rapaz, cujo objetivo é simplesmente continuar vivo.

Para driblar os problemas, eles continuam demonstrando o valor que têm tanto dentro quanto fora do campo, e organizam atividades culturais e oficinas esportivas infantis.

"A ideia é mostrar para as pessoas que podemos contribuir com a comunidade", enfatizou Hauvelith.

Os esforços, no entanto, não evitam as baixas. Primeiro, a do clube londrino, que retirou o apoio financeiro há alguns meses, e depois, a de alguns companheiros detidos por trabalhos ilícitos, como tráfico de drogas.

"É triste. Muita gente diz que estou louco, mas acredito no que faço. Estes rapazes precisam de alguém para motivá-los. Precisam ver um futuro diferente", defendeu Koya, que agora paga todas as despesas do time, enquanto aguarda um novo patrocinador.

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