Droga, favores e corrupção: o escândalo nas alfândegas filipinas

Atahualpa Amerise.

Manila, 4 ago (EFE).- A entrada de mais de meia tonelada de metanfetamina com a suposta conivência do serviço alfandegário gerou um forte escândalo nas Filipinas, imersas na polêmica e sangrenta guerra contra as drogas do presidente Rodrigo Duterte.

"Este trabalho é, para mim, uma missão. Por isso, não vou me demitir", foi a declaração com a qual se defendeu o comissário do Escritório de Alfândegas, Nicanor Faeldon, depois que nesta semana vários deputados e senadores pediram sua cabeça pelo escândalo.

Duterte, no entanto, reiterou sua confiança no funcionário, que ele mesmo pôs à frente da Alfândega para acabar com a corrupção, mas que na atualidade está no olho do furacão por um assunto que agitou e indignou o país.

Tudo começou no final de maio, quando as autoridades apreenderam em uma residência de Valenzuela, no norte de Manila, uma carga de 604 quilos de cloridrato de metanfetamina, a droga conhecida como "shabú", que causa estragos nas áreas marginais das Filipinas e à qual Duterte declarou uma guerra sem quartel.

O Senado, que investiga o fato, lançou uma bomba nesta semana ao denunciar que a carga de "shabú" - com um valor de US$ 120 milhões - tinha entrado ao país pela via expressa, um canal especial reservado a importadores e empresas, sob supervisão do Escritório de Alfândegas e que não requer inspeção por raios X.

Dessa forma, cinco enormes cilindros metálicos etiquetados como "utensílios de cozinha" e recheados com o dobro do seu peso em drogas passaram diante dos olhos dos agentes da Alfândega e chegaram a seu destino, onde finalmente foram apreendidos pela polícia e pela Agência Antidrogas graças a uma delação.

A carga de droga não só descumpria o principal requisito da via expressa (seu importador não estava registrado nas Alfândegas), mas também vinha da China, país vetado para este canal especial, razão pela qual o Senado e o Congresso denunciaram a conivência de altos funcionários.

"Está claro que na permissão de entrada desta carga está envolvida o escritório de Alfândegas e sabe-se lá quem mais", denunciou na audiência desta semana Franklin Drilon, um dos 24 senadores da câmara alta que ostenta amplos poderes na Filipinas.

Para acrescentar mais polêmica ao incidente, se descobriu que o Escritório de Alfândegas manipulou a carga após ser apreendida, apesar de carecer de autoridade e descumprindo todos os protocolos.

"A carga foi contaminada por estar exposta às mãos de todos (os funcionários da Alfândega). Inclusive tiraram selfies com a droga", criticou em uma entrevista a uma emissora de televisão o diretor regional da Agência Antidrogas, Wilkins Villanueva.

Já o comissário apoiado por Duterte limitou sua defesa com um ataque à corrupção generalizada nos órgãos governamentais do país.

"Deveriam ter vergonha", disse sobre a própria classe a política filipina Nicanor Faeldon, após assegurar - sem revelar nomes - que todos os dias recebe ligações, inclusive do Congresso, para solicitar promoções ilícitas ou rebaixamentos de tarifas.

Além de revelar possíveis práticas corruptas de alto nível, o escândalo poderia influenciar na guerra "contra as drogas" do presidente Duterte, que em numerosas ocasiões estimulou policiais e cidadãos a eliminar traficantes e consumidores de "shabú", gerando um clima de impunidade para quem matar suspeitos.

Essa campanha contra as drogas, que deixou 7 mil mortes em pouco mais de um ano, chegou a ser suspensa por um mês no início do ano após a revelação de outro escândalo de práticas corruptas, neste caso, da polícia.

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