Novo papel da primeira-dama divide política francesa

Marta Garde.

Paris, 5 ago (EFE).- O projeto de lei que proíbe ocupantes de cargos públicos de contratar familiares colocou na mira o papel da primeira-dama da França, a quem Emmanuel Macron prometeu dar status e visibilidade claros antes de chegar à presidência.

A decisão de que a mulher do presidente tenha um orçamento próprio incomodou a oposição - tanto a de direita quanto a de esquerda -, que utilizou a imprensa e as redes sociais para criticar o protagonismo de Brigitte Macron. As promessas eleitorais do agora presidente já tinham evidenciado sua intenção de acabar com o limbo oficial onde as antecessoras da esposa estiveram, mas o cumprimento dos planos, em um momento de corte de despesas e após o veto aos parentes de parlamentares, ministros e funcionários públicos, incomodou parte da classe política.

"Faça o que eu digo, mas não o que eu faço", ironizou recentemente o deputado Thierry Mariani, do partido conservador Os Republicanos.

A crítica foi compartilhada pelos socialistas e pelo esquerdista França Insubmissa, que reprovam a aplicação de dois pesos, duas medidas a um trabalho que até agora carecia de definição e que permanecerá assim até setembro.

"Na história dos casais presidenciais, as primeiras-damas sempre desenvolveram atividades beneficentes. Não vejo por que a mulher do chefe do Estado deveria ter um orçamento pago com dinheiro público", afirmou o deputado socialista Luc Carvounas.

Segundo o jornal "Le Figaro", atualmente Brigitte Macron possui duas secretárias, "dois ou três colaboradores", seguranças e dinheiro para o financiamento das suas atividades e remuneração da equipe.

Além disso, a ausência de uma primeira-dama oficial no último governo, o de François Hollande, aumentou ainda mais o interesse em torno de Brigitte, por exemplo, em recentes encontros ou eventos, como o que ela e o marido tiveram com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o com a cantora Rihanna.

As funções da primeira-dama só serão definidas em setembro, quando o novo ano político começar, mas a escolarização das crianças hospitalizadas e as dificuldades que as pessoas com necessidades especiais enfrentam já figuram entre as suas prioridades.

"Nada é de improviso. Precisa de muita seriedade e proximidade com os temas. Ouço o que as pessoas dizem e estudo. Nada é anedótico. É um trabalho de verdade, que faço com prazer, tentando responder ao que os franceses esperam de mim", disse a primeira-dama em declarações à revista "Voici".

Segundo fontes presidenciais, seu escritório, na chamada ala "Madame" do Palácio do Eliseu, recebe diariamente cerca de 200 cartas. Nos dois primeiros meses, recebeu mais do que a antecessora, a então namorada de Hollande, a jornalista Valérie Trierweiler, em um ano.

O diretor de gabinete, Pierre-Olivier Costa, explicou à revista "Capital" que o dinheiro necessário para as diferentes missões procede diretamente do orçamento presidencial. E apesar de o status definitivo da posição ainda estar sendo analisado, ele prometeu transparência "total" sobre "o que faz, como e porque".

A França não se esquece da polêmica de 2007 gerada depois da revelação de que Cécilia Sarkozy tinha um cartão de crédito vinculado ao Tesouro Nacional, que ela foi obrigada a devolver. À época, o porta-voz governamental, Laurent Wauquiez, afirmou que ela só havia usado o benefício para pagar "dois ou três convites para comer".

À espera da delimitação desse papel, a modificação do status da primeira-dama é questionada, acima de tudo, por supostamente se sobrepor ao veto que foi aprovado de forma definitiva pelo Parlamento esta semana.

"Brigitte Macron, então, seria uma funcionária? E os deputados serão proibidos de contratar um familiar?", resumiu no Twitter o deputado de esquerda radical Éric Coquerel.
 

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