Em "missão impossível", veterinário resgata animais da "Disneylândia" síria

Susana Samhan.

Beirute, 7 ago (EFE).- "Isso foi como 'Missão impossível'", brincou o veterinário egípcio Amir Khalil, responsável pelo resgate de 13 animais, a maioria selvagens, presos durante os combates na "Disneylândia" síria.

Salvar cinco leões, dois tigres, dois ursos, duas hienas e dois cachorros abandonados no parque temático "Magic World" em Kafr Naya, 20 quilômetros ao sudoeste da cidade de Aleppo, foi uma odisseia.

"No começo da guerra (em 2011), o dono do parque foi sequestrado e fugiu para os Estados Unidos após ser libertado, há seis anos. Nesse período, um cuidador mantinha as centenas de animais que estavam lá", explicou à Agência Efe Khalil, veterinário e diretor da ONG austríaca Four Paws.

Antes do conflito, o "Magic World" atraía famílias que procuravam suas atrações, restaurantes e seus três zoológicos, em uma área de dez quilômetros quadrados, mas que agora está sob o controle do Organismo de Liberdade do Levante, a aliança da ex-filial síria da Al Qaeda.

Após a fuga de seu proprietário, a maioria dos animais morreu de inanição e doenças por estarem próximos aos enfrentamentos. Ao saber da situação, Khalil traçou um plano de resgate com sua equipe.

O primeiro passo foi assessorar o cuidador para melhorar a alimentação dos animais, que estavam muito fracos e desidratados, e para que não morressem durante a viagem.

A evacuação ocorreu em duas viagens, a primeira no último dia 21 de julho e a segunda no dia 29, com o apoio de uma equipe dentro da Síria, outra na Turquia e outra na Jordânia.

Antes de agir, Khalil relatou que foi a Nova Orleans (Estados Unidos), onde vive o proprietário do "Magic World", para lhe pedir a documentação, as permissões necessárias e uma declaração gravada em vídeo para evitar acusações de roubo.

Com todos os papéis em ordem, a operação começou na prática.

Um dos principais desafios foi colocar os animais nas jaulas para o transporte, dada a falta de anestesia e tranquilizantes. Para isso, o cuidador usou um pouco de comida como isca.

Além disso, para despistar os combatentes, Khalil espalhou rumores de que um caminhão com as feras passaria pela província de Idlib em direção à passagem fronteiriça de Bab al Hawa para impedir que o Organismo de Liberdade do Levante ou qualquer outra facção os interceptasse para pedir dinheiro ou sequestrá-los.

De fato, um veículo passou por Idlib, província vizinha a Aleppo, mas totalmente vazio.

Entretanto, outro caminhão com os animais fez a travessia de Kafr Naha pela passagem fronteiriça Al Rai-Çobanbey, entre Aleppo e a Turquia, através de áreas fora do domínio do governo sírio.

"Tínhamos voluntários que vigiavam a estrada para ver se se podíamos passar ou não e que se comunicavam com o motorista do caminhão para informá-lo", contou Khalil, que coordenou a operação do território turco.

Após saírem da Síria, os animais se encontram agora no centro de proteção de Karacabey, na Turquia, à espera de serem transferidos à Jordânia.

Após passarem por exames em Karacabey, alguns problemas foram detectados: "Uma hiena está cega, outra tem problemas de rim; os tigres, do coração; e os leões, de pele. E todos os animais estão desidratados", detalhou Khalil.

Mas também tiveram uma boa notícia. "A leoa está grávida e terá dois filhotes em duas semanas", comemorou.

Em abril, Khalil ajudou no salvamento dos animais do zoológico de Mossul, no Iraque, que "foi um paraíso em comparação com a Síria".

"Em Mossul há claramente duas partes que estão lutando, o Estado Islâmico (EI) e o governo iraquiano e os EUA. Foi fácil passar entre os dois lados, mas na Síria, se você olhar no mapa, todo mundo está lutando ali", lamentou.

Em relação às críticas por se dedicar a salvar a animais ao invés de pessoas, Khalil responde: "A bondade não pode ser dividida, e uma pessoa boa deve sê-la não só com os humanos, mas também com os animais".

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