Tartaristão, uma "batata quente" para Putin

Ignacio Ortega.

Moscou, 8 ago (EFE).- República com maior autonomia dentro da Rússia, o Tartaristão se transformou em uma "batata quente" para o presidente do país, Vladimir Putin, ao pedir a assinatura de um novo tratado de repartição de poderes com Moscou.

Os tártaros, segunda maior etnia do país após os russos, se baseiam na Constituição aprovada em 1992 e que deixa portas abertas à autodeterminação ao dar prioridade à legislação regional sobre a federal.

O atual tratado expirou no mês passado e o Congresso Mundial dos Tártaros (CMT) já pediu em junho a Putin sua renovação, algo que o Kremlin não parece ter pressa para fazer, o que começa a inquietar essa etnia de crença muçulmana.

Segundo o jornal "Kommersant", o Kremlin considera que esse tratado é obsoleto, argumentando que um Estado federal não pode ser construído sobre a base de tratados com seus membros.

Com a exceção de alguns membros da organização islamita Hizb-ut-Tahrir detidos por atividades extremistas na república, os tártaros nunca seguiram o caminho dos chechenos, mas sua identidade nacional e cultural estão muito arraigadas.

O chefe do comitê executivo do CMT, Rinat Zakirov, afirmou nesta semana que tal pedido não é um capricho passageiro, mas a vontade da maioria de habitantes da república, situada em volta do rio Volga e onde cerca de 40% da população é russa.

Zakirov lembrou que em 1992, justamente após a desintegração soviética, mais de 60% dos tártaros votaram em referendo que sua república é um Estado soberano e assunto do direito internacional.

Não limitados a isso, também querem continuar mantendo a figura do presidente da república, algo que deixou de existir no resto dos entes federados em 2016 e que o Kremlin tampouco vê com bons olhos.

O primeiro presidente tártaro, Mintimer Shaimiev, um político com grande autoridade moral na Rússia, lembrou que a república assinou em 1994 seu primeiro tratado com Moscou - quando Boris Yeltsin dirigia o Kremlin - no marco do processo de federalização do país herdeiro da União Soviética.

"Tal tratado decidiu o destino do país. Foi como cruzar uma ponte sobre o inferno. Com o tempo, dirigentes, políticos e especialistas avaliaram o tratado de repartições de competências entre a Rússia e o Tartaristão como um dos principais fatores para a manutenção da integridade do Estado russo", apontou.

Já com Putin no poder, o Tartaristão assinou com a Rússia um novo acordo em 2007, que permitiu eliminar algumas discrepâncias jurídicas, mas que não removeu todas as contradições entre as constituições local e central, opinou.

Seja como for, o Tartaristão se mostrou convencido de que ambas as partes encontrarão uma "linguagem comum", já que os tártaros são os primeiros interessados em uma "Rússia forte", o que permitirá o seu reconhecimento internacional como um Estado federado.

"Inclusive nos períodos mais difíceis defendemos o reforço econômico da Rússia e respaldamos essas declarações com o nosso trabalho", ressaltou Shaimiev.

No entanto, seus críticos consideram que essa exclusividade tártara cria um perigoso precedente, já que alguns povos o veem como um agravo comparativo e outros como um exemplo a seguir no futuro.

Além disso, vai contra as tentativas de Putin de sufocar de uma vez por todas os clamores separatistas que tanto esforço custou acalmar no Cáucaso, especialmente na Chechênia, onde foram travadas duas sangrentas guerras por esse motivo.

Putin, que sempre afirma ter evitado com sua chegada ao poder uma segunda onda separatista no país, acredita que a força da Rússia vem da sua unidade no marco de um Estado com a língua russa como laço de união.

Os analistas ainda não o consideram um problema, mas acreditam que se o Kremlin se mostrar inflexível, a reação dos tártaros, mais de cinco milhões espalhados por todo o país, pode ser muito negativa em relação às eleições presidenciais de março de 2018.

O Tartaristão, onde a etnia local domina todas as esferas do poder político e econômico, com muçulmanos e cristãos convivendo em paz, é uma das regiões mais desenvolvidas do país graças aos hidrocarbonetos, enquanto Kazan é considerada a terceira capital russa, após Moscou e São Petersburgo.

A reivindicação tártara não é política, econômica ou de identidade, mas uma tentativa de resistir à assimilação religiosa, cultural e linguística russa.

De fato, entre as exigências ouvidas no Congresso que se reúne a cada cinco anos está a de considerar o tártaro como língua oficial pela Constituição da mesma forma que o russo, como ocorre em outros Estados federais.

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