Vítimas do conflito armado pedem uma Colômbia diferente daquela que viveram

Cristina Cabrejas.

Villavicencio, 8 set (EFE).- Algumas das cerca de 6.000 vítimas que nesta sexta-feira irão ao ato de reconciliação realizada pelo papa Francisco em Villavicencio, apesar de tudo o que passaram durante estes anos de conflito armado, concordam em que deve-se perdoar os seus agressores para deixar uma Colômbia diferente.

Vestidos totalmente de branco, para simbolizar a paz, esperam com entusiasmo e um pouco de nervosismo o ato que vai culminar com um final simbólico o processo de paz com as FARC, que dividiu o país.

Um deles é Leiner Palacios, que representa as vítimas de Bojayá no departamento de Chocó, um dos maiores massacres causados pelas Farc, agora convertidas em partido político.

"Em 2002 houve um confronto com as FARC e cerca de 600 pessoas se refugiaram em uma Igreja, mas jogaram um cilindro-bomba que caiu na igreja e matou 79 civis, destes 48 crianças, 32 delas eram pessoas próximas, 28 eram meus primos e sobrinhos", disse à Agência Efe.

Em Bojayá, em 2 de maio de 2002, uma bomba lançada pelas Farc durante um combate com as paramilitares Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) caiu na igreja onde tinha buscado refúgio boa parte dos habitantes.

As 16 pessoas de Bojayá que hoje estarão presentes no ato levaram o cristo mutilado dessa igreja e esperam que hoje, com a bênção de Francisco, "se transforme em um símbolo da unidade colombiana e um sinal de que estão "começando a curar as feridas no país", explicou Palacios.

Ele assegura que ele perdoou, ainda que precise ter "muita esperança e muita fé".

"Eu vejo as crianças que correm e penso nas que morreram naquele dia, mas temos o compromisso moral de deixar uma Colômbia diferente para elas", acrescentou Palacios.

O homem explicou que para chegar à reconciliação se está trabalhando e ele mesmo discute e se encontra com aqueles "atores armados para que isto não volte a se repetir".

O perdão foi mais difícil para Birleida Ballesteros Bermúdez, uma mulher de caráter forte, mas cujos olhos ficam marejados quando lembra tudo o que aconteceu.

Birleida representa as vítimas do departamento de Antioquia e sobretudo as mulheres vítimas do conflito.

Ela perdeu seu marido, assassinado pelas Farc, conseguiu salvar seus irmãos de serem recrutados e para isso tiveram que fugir da sua casa, mas não conseguiu se salvar de uma violência sexual "que lhe marcou a vida para sempre".

"Sentia a necessidade de vir para ver o papa porque sentia uma raiva por dentro. Aqui enquanto se aproxima o ato sinto paz e sinto que essa carga vai diminuindo", assegurou a mulher em entrevista à Efe.

"Mas quero dizer a esses senhores que eles devem falar, que têm que explicar por que fizeram isto, qual era o seu objetivo, por que cometeram esses massacres", acrescentou Birleida.

"Uma pessoa cordata não faz o que eles fizeram, mas não sou Deus e não posso julgá-los, só lhes peço que tentem se reconciliar com todos os colombianos e colombianas porque este país é divino", continuou a mulher.

"Agora já chegando aos 40 anos quero perdoar, porquer tenho filhos e quero viver em paz, e não quero levar essa carga para sempre, uma carga que me marcou para toda a vida", assegurou emocionada.

Um dos mais jovens que estarão no ato de reconciliação representando as vítimas é Jonathan Cardona, de 16 anos, do município de Santuario, no departamento de Risaralda, mas ele teve que fugir.

Cardona explicou à Efe que quando tinha 5 anos, um grupo de paramilitares chegou a Santuario para levar à força todos os seus irmãos.

"A minha mãe conseguiu tirá-los às escondidas, mas tivemos que ir embora e a nossa vida mudou", afirmou o rapaz.

Agora Jonathan trabalha na fundação "Amanecer", que ajuda crianças vítimas do conflito armado para que esqueçam o que viveram.

Crianças que não tiveram a mesma sorte que ele.

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