Mais de 20 mil vítimas de abusos na Guerra da Bósnia exigem justiça

Nedim Hasic

Sarajevo, 12 set (EFE).- Cerca de 20 mil mulheres, abusadas há mais de 20 anos durante a guerra da Bósnia, ainda exigem hoje uma reparação perante a justiça do país ou pelo menos algum tipo de assistência psicológica e econômica.

"Mais de duas décadas após a guerra, dezenas de milhares de mulheres na Bósnia tratam ainda de recompor suas vidas que foram despedaçadas, com pouco acesso à assistência médica, psicológica e financeira, as quais necessitam desesperadamente", apontou nesta terça-feira a diretora adjunta para a Europa da organização pró direitos humanos Anistia Internacional (AI), Gauri Van Gulik.

"Há inumeras mulheres que nunca admitiram que foram abusadas. Por medo, por vergonha, por temor de que a família não as aceitaria. E ninguém fala das mulheres que foram abusadas e depois assassinadas", disse hoje à Agência Efe a presidente da Associação de Mulheres Vítimas da Guerra, Bakira Hasecic.

Van Gulik advertiu que "segundo os anos vão se passando, vai escapando a perspectiva de poder obter justiça ou de receber a ajuda que lhes corresponde. Estas mulheres não podem esquecer o que aconteceu e tampouco nós devemos esquecer".

Milhares de mulheres e meninas foram abusadas e submetidas a todos tipos de formas de abuso sexual durante a guerra bósnia (1992-1995).

A organização pró direitos humanos lembra que muitas delas foram inclusive sistematicamente agredidas nos chamados "campos de violação".

A AI publicou hoje um relatório intitulado "Necessitamos apoio, não lástima: A última oportunidade para as sobreviventes dos abusos de guerra na Bósnia", que foi elaborado com base em investigações que duraram dois anos.

O relatório revela que muitas vítimas ainda sofrem as consequências físicas e psíquicas devastadoras destes crimes de guerra e que enfrentam barreiras para conseguir ajudas.

Um dos casos é o de quem se identifica como "Elma", uma mulher que relatou que há quase 25 anos, quando estava grávida de quatro meses, foi capturada e levada a um "campo de abuso", onde foi estuprada diariamente por grupos de militares.

Em consequência dos graves abusos, a mulher perdeu a criança e sofreu danos pela vida na coluna vertebral.

Quase 25 anos depois, não têm emprego e nem assistência médica, psicológica ou financeira que necessita, aponta a AI em seu relatório.

A AI estima que cerca de 20 mil mulheres foram vítimas de diversas formas de abuso sexual durante a guerra, mas a presidente da Associação de Mulheres Vítimas da Guerra assegura que o número é até maior.

Desde que em 2004 começaram os juízos por crimes de guerra em Bósnia, menos de 1% destas agressões sexuais chegaram aos tribunais bósnios e apenas em 123 casos os culpados foram processados, aponta o documento.

"Além disso, as sanções foram muito leves, de três a cinco anos e quando o juiz dita uma indenização à vítima, esta nunca recebe", explicou à Efe Jelena Sesar, investigadora de AI.

A lentidão e as deficiências da justiça desencorajaram às sobreviventes de denunciar, debilitaram a confiança no sistema de justiça penal e criaram uma sensação de impunidade, aponta o documento.

Sanja, capturada e repetidamente estuprado por um soldado e os seus companheiros, denunciou após a guerra perante as autoridades, mas estas não reagiram. Por isso, nunca pôde receber alguma assistência social pelos danos sofridos.

"Já não acredito em ninguém, especialmente não no estado. Todos falharam comigo", apontou Sanja, citada no relatório da Anistia.

Muitas mulheres ficaram grávidas após serem estupradas, mas ninguém conhece o número de crianças concebidas assim.

Muitos dessas crianças terminaram em lares para órfãos, enquanto a maioria das mulheres que encontrou com estes filhos nunca disse a verdade.

Apenas cerca de 800 mulheres bósnias obtiveram alguma renda mensal ou outros benefícios pelos danos sofridos, ainda que só no ente compartilhado por croatas e muçulmanos.

A outra entidade bósnia, a chamada "República Sérvia", nem sequer reconhece este tipo de vítimas da guerra e nem a possibilidade de alguma recompensa.

"Estamos consternados por que não houve progresso para adotar leis a nível de todo o estado bósnio que garantam os direitos a estas vítimas", disse van Gulik.

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