Rohingyas em fuga de Mianmar preferem o lamaçal ao cemitério

José Luis Paniagua.

Campo de Kutupalong (Bangladesh), 15 set (EFE).- Cansados após longas e dolorosas viagens, milhares de rohingyas refugiados vivem sobre a lama, angustiados sobre o seu futuro em Bangladesh, mas nem cogitam a ideia de voltar a Mianmar, onde sabem que terão como destino o cemitério.

"Me disseram muito claramente: 'ou vão embora ou matamos vocês'", relatou Abby Sallam, rodeado por netos e pela família que deixou o povoado de Fakira Bazar, no estado ocidental de Rakhine.

O agricultor, de cabelo grisalho e barba curta, decidiu há uma semana aceitar o ultimato feito pelo exército de Mianmar e abandonou sua fazenda, sua casa, a única vida que conhecia, e se deslocou para Bangladesh.

No entanto, os militares não cumpriram o acordo e tiraram as vidas de dois dos seus filhos. Tudo isso é contado sem que Sallam demonstre emoção, como quem explica uma fórmula matemática: "Se voltarmos, morremos".

Assim como Abby Sallam, a maioria dos rohingyas nos campos de refugiados não querem nem ouvir falar de voltar a Mianmar, uma pretensão que as autoridades de Bangladesh repetiram até não poder mais nos últimos dias.

A primeira-ministra bengalesa, Sheikh Hasina, indicou nesta semana que o país aceitou os rohingyas unicamente sobre a premissa de uma "ação humanitária" em um momento de emergência, mas insistiu que a solução para a crise dos refugiados depende de Mianmar aceitar o retorno dessas pessoas.

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH) considera que a situação observada em Rakhine desde 25 de agosto é um "caso de limpeza étnica", o que é negado pelas autoridades de Mianmar, que qualificaram os rohingyas como "terroristas".

Não reconhecidos na terra em que nasceram e ignorados ou recebidos com má vontade no novo lar, os rohingyas são vistos por Bangladesh como uma "carga muito pesada" que o país não pode assumir.

"Voltar? Para quê? Não voltarei nunca", disse Rokki Mullah, de 30 anos, diante da esposa e de dois dos três filhos, com os quais viaja há 14 dias por montes e rios após sair da terra natal, Tum Bazar, fugindo dos militares, até chegar a Bangladesh.

A história de Mullah é bastante similar à de Abby: "Me disseram que se não abandonássemos o lugar, nos matariam", contou o refugiado.

Segundo ele, já não resta mais nada em Mianmar e a sua única preocupação agora é conseguir arroz e água fresca para a família, que há cinco dias vive sob uma lona de plástico preto em uma tenda improvisada à qual só se pode chegar engatinhando sobre a lama.

"Não acredito no governo de Mianmar", ressaltou, ao declarar que qualquer promessa que possa ser feita pelo governo de sua terra natal a Bangladesh "não serve para nada".

Outro morador do campo de Kutupalong é Elias Khan, de 24 anos, que foi trazido ao local pelo pai quando tinha 12 anos, em outra crise migratória de rohingyas.

Desde então, sempre viveu no mesmo lugar, estudou matemática e fala inglês fluente, motivo de orgulho para ele, que paga 300 takas (cerca de R$ 10) por mês para pagar um professor particular no campo. No entanto, a sua vida está longe de ser a que ele gostaria de ter.

"Eu tenho o direito de voltar a Mianmar, é a minha terra, e se o governo reconhecesse a minha nacionalidade, sim, voltaria", admitiu. EFE

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