Com a ferida ainda aberta, massacre de Sabra e Chatila completa 35 anos

Kathy Seleme

Beirute, 16 set (EFE).- O massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no oeste de Beirute (no Líbano), completa 35 anos nesta semana, uma ferida que ainda não cicatrizou para os habitantes desses acampamentos.

De 16 a 18 de setembro de 1982, em plena guerra civil libanesa (1975-1990), milicianos falangianos apoiados por Israel entraram nesses acampamentos e mataram centenas de pessoas, inclusive mulheres, crianças e idosos.

Não existe um número exato sobre a quantidade de vítimas. Enquanto o Líbano fala em 450 mortes, Israel diz que seriam entre 700 e 800. Já a Cruz Vermelha calcula que cerca de 2400 perderam a vida.

"Nenhuma mente humana pode esquecer o que aconteceu. Continuamos comovidos e surpreendidos, não só pelo ocorrido em Sabra e Chatila, mas também pelo silêncio da comunidade internacional diante dos crimes que Israel cometeu e continua cometendo", expressou Jalida Hussein, que preside o comitê de mulheres palestinas nos campos.

O massacre ocorreu no dia seguinte à entrada do Exército israelense em Beirute, única capital árabe que ocupou após a sua segunda invasão do Líbano em junho de 1982 e dois dias após o assassinato do presidente eleito Bashir Gemayel, que morreu quando estava na sede do partido falangiano (cristão) em um atentado que foi atribuído aos serviços secretos sírios.

Antes do incidente, a aviação israelense bombardeou esses acampamentos e durante a mesma ocasião os iluminou durante a noite com sinalizadores para permitir o massacre, que foi divulgado três dias depois.

"Às 17h de 16 de setembro começamos a escutar tiros. Alguns começaram a fugir, mas queriam convencê-los a retornar. Outros esperaram por um tempo. Voltei depois e visitei o hospital de Gaza. O que eu vi supera o terror humano", acrescentou Hussein, sem dar mais detalhes.

Pouco antes do massacre, a Organização para a Liberdade da Palestina (OLP) havia sido evacuada de Beirute após um acordo mediado por Philip Habib, enviado especial do então presidente ameriacano, Ronald Reagan, que prometeu proteger a vida dos refugiados nos acampamentos.

A participação de Israel nesses massacres provocou também o descontentamento de seu governo, com a formação da Comissão Kahan, cujo relatório final responsabilizou o então ministro de Defesa israelense, Ariel Sharon, pela entrada dos milicianos e de não ter ordenado medidas apropriadas para evitar o ocorrido.

Nenhum representante israelense, tampouco o chefe falangiano, Elie Hobeika, considerado o autor material dos massacres de Sabra e Chatila, foram julgados por um tribunal.

Algumas das razões do massacre nos acampamentos foi vingar os assassinatos cometidos pelos combatentes palestinos na cidade libanesa de Damour, onde mataram entre 52 e 582 habitantes cristãos e profanaram igrejas e cemitérios em 1976, uma das tantas tragédias durante a guerra civil no Líbano.

Suheir Natur, um representante palestino nos acampamentos, disse à Agência Efe que "o massacre contra o palestino não se limita a Sabra e Chatila".

"Começou quando nos expulsaram da nossa terra. Israel não reconhece o direito ao retorno. No Líbano, a juventude não pode desejar uma vida aceitável e próspera. As dificuldades são cada vez maiores e se complicam, a situação não é esperançosa. É como se quisessem nos exterminar", comentou.

Natur guarda dos massacres de Sabra e Chatila "uma lembrança terrível", pois ele vivia no acampamento de Chatila. "Mas, após a invasão israelense e o assassinato de Gemayel, me dei conta que estava se preparando algo muito grande", recordou Natur, que conseguiu fugir do massacre.

"Saí para colocar a minha família a salvo e depois não pude retornar, mas me dediquei a alertar aos libaneses nacionalistas sobre o que acontecia e também entrei em contato com a imprensa", afirmou.

"Já não confiamos mais nas organizações internacionais nem na opinião pública. Onde está o seu papel diante das tentativas de Israel de pôr fim ao trabalho da Agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) para eliminar completamente a nossa causa?", concluiu.

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