Programa de rádio na internet desafia "tabu" do sexo no Quênia

Alba Villén.

Nairóbi, 18 set (EFE).- Em um país onde o sexo é tabu em todas as manifestações públicas, duas atrizes do Quênia desafiam a censura com um programa de rádio na internet que aborda as relações desde um ponto de vista "positivo, honesto e educativo", e que já serve de tratamento e enciclopédia para muitos.

"The Spread", dirigido e locutado por Karen Lucas e Nini Wacera, tem se consolidado como refúgio para quem não encontra respostas para as dúvidas sobre o sexo, nem na escola e nem em casa.

O programa trata de temas como masturbação, ereção, como retardar a ejaculação e até como usar um preservativo ou que doenças podem ser transmitidas através do sexo. Os ouvintes estão cheios de dúvidas que Karen e Nini tentam resolver de forma divertida.

"Temos muitas perguntas sobre educação sexual e sobre o rendimento sexual. Outros nos escrevem porque querem melhorar sua vida sexual ou estão ansiosos para falar de sexo com seus casais", explicou Karen à Efe.

As suas vozes sensuais lutam por romper com a crença de que o sexo é algo negativo que sempre acaba em contágio por aids ou gravidezes não desejadas. "Sim, estas são algumas das consequências reais, mas também deve-se destacar todas as coisas positivas que nos dão as relações saudáveis", continuou Karen.

"É muito cedo se fizer sexo com o meu namorado de dois meses?", pergunta uma garota de 19 anos em um dos programas. "Eu faria quando ficasse de frente para essa pessoa, a olhasse nos olhos e me sentisse completamente segura de que posso me deitar com ele", responde Nini.

A sociedade queniana é muito complexa neste aspecto. Segundo um estudo do Centro de População Africana e Pesquisa em Saúde, um em cada quatro estudantes de ensino médio acredita que usar preservativo é sinal de desconfiança para o companheiro, e mais da metade dos rapazes acreditam que quando ela diz "não", na realidade significa "sim".

As escolas - onde a maioria do corpo docente recomenda a abstinência para evitar doenças ou gravidezes - não contemplam a educação sexual em seus programas, e as autoridades querem que nem se faça menção nas transmissões audiovisuais públicas.

A ausência de informação, em uma sociedade onde as relações começam entre 13 e 17 anos, leva os adolescentes a buscar respostas em meios alternativos, como "The Spread", que não se cansa de transmitir mensagens que podem ser óbvias. "Nunca faça sexo se você não quiser".

Outro tema "sensível" no Quênia, e portanto debatido neste programa, é a homossexualidade, que a maioria da população entende como proibida.

"A lei não criminaliza a identidade de pessoas que são homossexuais, mas toda relação consentida entre adultos do mesmo sexo deve acontecer na privacidade do dormitório", explicou à audiência um advogado convidado por "The Spread".

O tom direto e desafiador do programa - que chama de "hipócrita" os setores conservadores, a quem acusa de "pensar que o sexo e o estupro são a mesma coisa" - provocou a rejeição dos setores mais tradicionais do país, que tentam insultar suas apresentadoras chamando-as de "lésbicas".

O espaço aberto e sem censura também tem presença nas redes sociais, onde compartilham diariamente mensagens positivas e picantes.

Com isso, elas pretendem empoderar essa parte da sociedade que quer se desprender do estereótipo de que falar sobre sexo é libertinagem. "A sexualidade não é uma atividade de lazer de tempo parcial, é uma forma de ser", segundo o programa.

Desde o começo de 2016 no ar, "The Spread" se tornou um dos podcasts mais ouvidos no país e chegou a estar entre os 30 mais "baixados" do iTunes.

Ainda que Karen e Nini prefiram que a educação sexual comece nas salas de aula, elas estão dispostas a falar sobre sexo como se faz em um grupo de amigos.

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