O cuscuz que engasga a extrema-direita francesa

Enrique Rubio.

Paris, 20 set (EFE).- No atual estado de ebulição da extrema-direita francesa, um ato tão banal como comer um cuscuz pode se tornar uma questão grave, principalmente quando quem está comendo é o polêmico vice-presidente da Frente Nacional (FN), Florian Philippot.

Praticamente metade do partido quer a cabeça de Philippot, especialmente depois das últimas eleições presidenciais e legislativas.

Os rivais não perdem a chance de atiçar o público e as redes sociais. Desta vez, tudo começou com o prato típico do Magrebe, que Philippot degustou na quarta-feira passada junto a companheiros do movimento que ele mesmo fundou neste ano, os Patriotas.

Uma das participantes no jantar, Kelly Betesh, compartilhou com seus mais de 11 mil seguidores no Twitter uma foto na qual é possível ver o vice-presidente da FN jantar com ela e outros amigos no "melhor restaurante de cuscuz de Estrasburgo", capital da Alsácia, no nordeste da França.

Poucos minutos depois chegou a resposta da ala mais radical da extrema-direita francesa, que não perdoa Philippot pelo giro social e econômico que deseja implantar no partido a respeito das questões identitárias e xenofóbicas.

Em seguida, os seguidores entraram na conversa, criticando a invasão do cuscuz islâmico aos fogões franceses. Betesh postou horas depois a foto de um prato com salsichas e panceta acompanhadas de um chucrute, mas já era tarde: Philippot sofria uma vez mais o ataque dos correligionários, que exigem um retorno às essências da FN.

Vários dos mais destacados dirigentes do partido se pronunciaram sobre esta polêmica, que também afeta outra das pessoas que estavam presente na ocasião, a eurodeputada Sophie Montel.

"Os que fazem provocações quando se posta uma foto de cuscuz em Estrasburgo são simplesmente cretinos. Que provem um prato de cuscuz, verão que é muito bom", disse Philippot ao ser entrevistado pela emissora "France Inter" na terça-feira.

Também lembrou aos detratores que foram os "pieds-noirs" (pés pretos) - antigos residentes europeus na Argélia que foram obrigados a sair do país após a independência e entre os quais a FN tem certa influência - que trouxeram o cuscuz à França.

Como pano de fundo da polêmica aparece a guerra civil que aflige atualmente a Frente Nacional, dividida entre a alma reacionária e identitária e os seguidores da estratégia de "desdemonização" do partido, liderados por Philippot, que até agora tinha dado bons resultados eleitorais.

O mau desempenho da líder ultradireitista Marine Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais e do partido nas legislativas de junho mostraram as rachaduras de um bloco que até então parecia monolítico.

O principal alvo dos ataques tem sido Philippot, agora distanciado de sua líder, da qual foi o principal colaborador nos últimos anos.

Nascido em 1981 em Croix, no norte da França, ele procede das fileiras da soberania de esquerda encarnada pelo ex-ministro socialista Jean-Pierre Chevènement.

Philippot sempre defendeu a saída do euro e o combate contra os efeitos da globalização, acima da defesa dos valores conservadores que caracterizavam a Frente Nacional do fundador Jean-Marie Le Pen.

Confrontada ao limite, uma parte influente e em alta dentro do partido aposta em recuperar o discurso das origens e travar debates como a saída do euro, que podem assustar potenciais eleitores.

Marine Le Pen, sobre quem pairam dúvidas sobre a capacidade real de algum dia vencer as eleições presidenciais, ordenou na sexta-feira passada que Philippot dedique todos os esforços ao processo de refundação da Frente Nacional que será iniciado.

No entanto, ele já respondeu que não tem a intenção de deixar a presidência dos Patriotas, nem de comer o que quiser: "É lamentável, é penoso, mas isto não me impedirá continuar comendo cuscuz", afirmou.

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