Perdão e "pagamento de sangue" dão início à reconciliação palestina em Gaza

Saud Abu Ramadán.

Gaza, 21 set (EFE).- Durante os últimos dez anos, as famílias Sobeh e Al Ghalban, de Khan Younis, no sul de Gaza, juraram se vingar cedo ou tarde do assassinato de seus filhos, um desejo ao qual agora renunciam em troca de uma compensação financeira para facilitar a reconciliação palestina no território.

Mohamad al Ghalban, um militante do Hamas de 27 anos, foi assassinado por homens mascarados pouco depois da assinatura do acordo de reconciliação entre o grupo islamita e Al Fatah em fevereiro de 2007. No dia seguinte, membros do Hamas exigiram vingança e mataram três pessoas, uma delas Ismail Sobeh, um idoso de 70 anos.

Este episódio violento é um dos muitos que se repetiram na Faixa de Gaza entre 2006 e 2008, precedendo e sucedendo as tensões entre as facções rivais, que chegaram ao seu ponto mais alto quando o Hamas expulsou de Gaza as forças de Al Fatah leais ao presidente Mahmoud Abbas em junho de 2007.

Sobeh e Al Ghalban não foram as únicas vítimas destas lutas, que, segundo dados do Comitê Unido de Reconciliação Social palestino, deixaram cerca de 400 mortos e mais de dois mil feridos em ambos os lados.

Ibrahim Sobeh, de 30 anos e filho de Ismail, disse à Agência Efe que ao longo de uma década não soube exatamente quem matou seu pai "porque durante os enfrentamentos todo mundo usava máscaras", o que não evitou que nesse período "sempre pensasse na sua vingança".

"Reconciliação real e acabar com a separação interna são a única garantia para mim e para a minha família, bem como para as famílias de outras vítimas, de impedir a vingança e deixar de pensar nela", afirma este simpatizante de Al Fatah.

Com suas palavras, Sobeh respalda o acordo de reconciliação firmado em junho sob mediação egípcia, que não se materializou até a última quinta-feira, quando 14 famílias foram as primeiras a receber o "deyya" (pagamento de sangue) de 50 mil dinares jordanianos (equivalente a R$ 220 mil), apresentado pelos Emirados Árabes Unidos.

O ato de perdão aconteceu durante uma cerimônia oficial em Gaza que teve a presença de oito mil pessoas. Para receber a compensação, os familiares tiveram que desistir da vingança.

O princípio de entendimento foi assinado em 2011 no Cairo, mas foi adiado até este ano por divergências políticas entre as facções.

Sobeh diz que ele e sua família se sentem "cômodos" após aderirem ao pacto, com a esperança de que seja "o princípio do fim de anos de ódio" e "a abertura de uma nova página da reconciliação pelo bem do futuro dos nossos filhos para ter uma vida melhor".

Os familiares de Mohamed al Ghalban também aceitaram o "deyya" na cerimônia, que contou com a presença de notáveis e líderes da comunidade.

Para alguns, no entanto, os sentimentos cultivados durante tantos anos não vão embora facilmente.

"Ainda que tenhamos aceitado o acordo e o 'deyya', não creio que nossos corações estejam satisfeitos e acredite: se eu conhecesse o rosto da pessoa que matou o nosso filho, não hesitaria em me vingar", confessou à Efe um dos membros dos Ghalban, que se recusa a dar seu nome completo.

Se os dirigentes de Hamas e Al Fatah conseguissem "uma verdadeira e séria reconciliação", destacou, "acredito que os nossos corações e mentes deixariam de pensar em vingança", mas "isto está descartado porque ainda existem diferenças".

Majed Abu Shamalah, presidente do Comitê Unido e integrante do Al Fatah, afirmou à Efe que acabar com as disputas familiares "é o primeiro passo prático para conseguir a total reconciliação" através da "anistia e do perdão".

Um fato que confirma o passo dado pelo Hamas no último domingo com o anúncio da dissolução do comitê com o qual administra Gaza desde 2016 e a permissão do retorno ao território do governo de consenso liderado pelo primeiro-ministro palestino, Rami Hamdala.

Membros de partidos políticos e representantes do Comitê Islâmico para o Desenvolvimento e a Solidariedade Social 'Takaful', que supervisiona a reconciliação, confirmam que este tema avança de maneira positiva.

Ahmed Abu Harb, uma das vítimas da divisão e cujo filho foi assassinado com um tiro na cabeça por um partidário de Al Fatah em 9 de junho de 2007, é um exemplo dos que estão preparados para encerrar este capítulo.

"Hoje, 11 anos depois, perdoamos. Essa será a primeira semente no caminho de uma reconciliação", disse o esperançoso Ahmed.

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