Congresso alternativo reúne milhares de mulheres israelenses e palestinas

Maya Siminovich

Mar Morto (Cisjordânia), 9 out (EFE).- Cerca de 5 mil mulheres israelenses e palestinas se reuniram neste fim de semana em um congresso às margens do Mar Morto para defender a ideia de que a solução para o conflito que presenciam a cada dia está nas suas mãos, e não nas dos políticos.

Em muitos casos vítimas do conflito, as participantes do fórum Mulheres Ativas pela Paz são de todo o espectro politico e social: de judias esquerdistas ex-hippies a colonizadoras sionistas de direita, de muçulmanas praticantes, algumas usando hijab, a palestinas atéias.

"Temos muita experiência na guerra e nenhuma na paz, chegou a hora de adquiri-la", disse à Agência Efe Tami Avigdor, integrante do fórum, que já tem 27.000 participantes em Israel e nos territorios administrados pela Autoridade Nacional Palestina (ANP).

Elas chegaram ao lugar que batizaram como chamado Kfar Hashalom (Povo da Paz, em hebraico) no norte do Mar Morto, em mais de 70 ônibus fretados para a ocasião, e vieram de todas as partes do país e da Cisjordânia.

"É um dia histórico, hoje termina a marcha de duas semanas que fizemos ao longo de todo o país", afirmou Walifait Haider, que veio de Haifa.

A marcha que essas mulheres fazem todos os anos desde a fundação do fórum, em 2014, exige dos políticos um acordo de paz que beneficie todas as partes.

Para contribuir para que isso aconteça, nos próximos dias será formado em Jerusalém um parlamento alternativo de 120 mulheres que representará todas estas mães e filhas do conflito, que entendem que têm que tomar as rédeas das decisões políticas ou, pelo menos, pressionar o suficiente para que algo mude.

"Não acredito na liderança masculina, criam mais problemas do que o tolerável, e já mostraram isso ao longo dos séculos", afirmou Yeilah Raanan, do kibutz Kisufim, que fica a um quilômetro e meio de Gaza.

Como ela, as integrantes do Mulheres Ativas pela Paz acreditam que as mulheres pagam um preço muito alto pelas guerras e que, por isso, têm maior interesse em pôr fim aos confrontos.

"Meu marido e meu irmão estão em prisões israelenses. Um dos meus filhos foi detido em diversas ocasiões por jogar pedras e coisas. Eu, de verdade, não quero que os meus netos nasçam em um mundo assim, por isso estou aqui", afirmou Saida, natural de Hebron.

Quando for formado o parlamento alternativo, as israelenses e palestinas assinarão um acordo de paz que consideram útil e válido e o levarão ao Knesset (parlamento israelense) como proposta de trabalho.

A marcha deste ano das ativistas foi bem recebida pelos prefeitos das cidades por onde elas passaram, tanto pelos do partido governista Likud como pelos opositores e de todo o arco político.

"Foi muito surpreendente que nos acolhessem de modo tão caloroso e nos parabenizassem pela iniciativa. Surpreendente e emocionante", afirmou Tami Avigdor.

Vestidas de branco em sua enorme maioria, as mulheres conversavam, se abraçavam, dançavam, comiam. Algumas trouxeram os filhos, outras estavam acompanhadas dos maridos.

Houve paineis de discussão nos quais se ouvia hebraico, árabe e inglês quase indistintamente, com participantes traduzindo-se umas às outras sempre que necessário.

Também estiveram presentes mulheres de outras partes do mundo, como chinesas, australianas, espanholas e tailandesas. Junto com as palestinas e israelenses, elas cantaram a "Oração das Mães", da cantora israelense Yael Deckelbaum, que compôs o hino para este movimento.

O fórum Mulheres Ativas pela Paz nasceu no verão de 2014, durante os 50 dias de confronto entre Hamas e Israel nos quais 73 israelenses e 2.200 palestinos morreram.

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