Ateus sofrem com perseguição da comunidade muçulmana na Malásia

Noel Caballero.

Kuala Lumpur, 10 out (EFE).- A inofensiva fotografia de um grupo de jovens durante uma reunião lúdica abriu uma campanha de assédio por parte das autoridades conservadoras da Malásia, onde ser ateu, como os protagonistas da imagem, é proibido para membros da etnia malaia, de fé muçulmana.

Um estudante universitário de 20 anos acusa o governo de obrigá-lo a seguir um caminho na sua vida que, por sua convicção, se nega a tomar.

"Me forçam a ser hipócrita. A aparentar compartilhar um pensamento com o qual não concordo para evitar problemas", declarou à Agência Efe o jovem malaio, que pediu anonimato para evitar possíveis represálias.

No início de agosto, um grupo de 20 jovens organizou uma reunião privada através da rede mundial "República Ateísta", com mais de 1,7 milhão de seguidores no mundo todo, e publicou uma foto do encontro no Facebook.

"Conheço pessoas que receberam ameaças de morte por aparecerem nessa imagem", apontou o estudante em uma cafeteria do cosmopolita centro de Kuala Lumpur, acompanhado por um amigo que também se considera ateu.

"Como somos de etnia malaia, nascemos sob o credo muçulmano conforme as leis estabelecidas, que nos proíbem de abdicar da religião (...) isto entra diretamente em conflito com as liberdades individuais", apontou o amigo, que também não quis ser identificado.

A população da multicultural Malásia, com cerca de 30 milhões de pessoas, é dominada pela etnia malaia - que supera os 50% do total de habitantes -, seguida de longe por descendentes de chineses (24%), indianos (7%) e minorias indígenas (11%), entre outros.

O Artigo 160 da Constituição da Malásia estipula que todos os malaios são muçulmanos. Em outra seção, garante a liberdade religiosa para os demais grupos.

Os dois jovens contam que seus pais preferem ignorar o seu estilo de vida, embora afirmem que tiveram problemas de índole dogmática com alguns familiares, inclusive irmãos mais velhos, especialmente durante o mês muçulmano do Ramadã.

Após a publicação da foto em grupo, Shahidan Kassim, ministro do Departamento para o Premiê, exigiu às autoridades que identificassem e perseguissem todos os malaios como ateus.

"Temos que trazê-los de volta ao caminho correto", disse então o dirigente político.

Religiosos islâmicos ainda mais conservadores lembraram, em declarações à imprensa local, que o castigo imposto na lei islâmica (sharia) contra a renegação da religião de um muçulmano é a morte.

Uma medida radical que foi rejeitada por representantes governamentais que, no entanto, insistem em "ignorar" o assunto.

"Não há um grupo formal de ateus. Não há uma associação, é perigoso se identificar como tal. Mais parece com um grupo de apoio para oferecer entre nós ajuda moral frente aos possíveis problemas sociais que ajuda a nossa maneira de pensar e agir", afirmou a dupla.

Organizações defensoras dos direitos humanos, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, alertaram sobre o processo de islamização registrado na sociedade malaia.

Embora ainda não exista uma lei para punir o ateísmo, os malaios considerados ateus podem ser internados em centros de reeducação religiosa.

A federação da Malásia tem um sistema jurídico dúbio pelo qual alguns temas, como a religião muçulmana, são legislados pelos governos estaduais.

Em mais da metade dos 14 estados do país, as autoridades locais impõem castigos corporais regidos pela Sharia e contam com uma espécie de policial da moral islâmica, conhecidos como "Jawi".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos