Ucrânia amplia "descomunização" e apaga marcas de passado soviético das ruas

Khrystyna Kinson.

Kiev, 11 out (EFE).- Sob uma política chamada de "descomunização", a Ucrânia apagou a marca de seu passado soviético ao renomear milhares de ruas, bairros e cidades, além de retirar do espaço público milhares de monumentos de figuras socialistas, como Lenin.

Prestes a completar 100 anos da revolução bolchevique que levou à instauração do comunismo, o governo da Ucrânia se vangloria de ter mudado os nomes de mais de 52 mil ruas, 32 cidades e 25 regiões relacionadas com o período da União Soviética.

Além disso, nos últimos três anos foram apagados do mapa 2.500 monumentos em homenagem a líderes soviéticos, incluindo 1.300 estátuas de Vladimir Lenin, o que faz parte dos esforços para construir uma nova identidade nacional.

Em entrevista à Agência Efe, o historiador ucraniano Bogdan Korolenko disse que a política ajudou o país não só a se desfazer dos símbolos do "regime comunista totalitário", mas também a se afastar ideologicamente da Rússia e lutar contra a propaganda no contexto atual de conflito entre os dois países.

"Há uma parte da população cuja mentalidade ainda está ligada à União Soviética (...) e a Rússia se apoia na existência desses símbolos para colocá-los do seu lado na guerra contra a Ucrânia", disse Korolenko, chefe do Departamento de Análise Regional do Instituto para a Memória Nacional da Ucrânia.

Em abril de 2015, o parlamento da Ucrânia adotou um conjunto de leis que regulam o processo de "descomunização" e condenam o regime socialista que governou o país entre 1917 e 1991, o nazismo, a negação pública do caráter criminoso dos dois sistemas e o uso de seus símbolos.

Em virtude dessa legislação, o próprio Instituto para a Memória Nacional pediu à promotoria que abra um procedimento penal contra as autoridades da cidade de Odessa, no sul do país, por ter restaurado monumentos de Lenin e do líder soviético Mikhail Kalinin.

"Todas as medidas que derivam da lei de 'descomunização' constituem uma questão de segurança nacional. Com isso, a Ucrânia procura defender sua soberania e se defender também da Rússia", argumentou o historiador.

Para Korolenko, existe uma espécie de "fronteira mental" construída a partir de elemento do passado. Ela é utilizada para semear a discórdia entre a população e propagar a ideia de que a Ucrânia, como a antiga república soviética, e a Rússia são uma mesma nação. Por isso, compartilham da mesma história, símbolos e heróis.

"A Crimeia e os territórios de Donetsk e Lugansk estão ocupados por grupos terroristas que não reconhecem a soberania ucraniana nem a Ucrânia como um Estado independente", acusou Korolenko.

O historiador avalia que, em alguma medida, essa mentalidade teve um papel importante no desencadeamento do conflito que atinge o leste do país. As manifestações que foram realizadas em várias cidades da região separatista durante a chamada "revolução de Maidan" giravam em torno do patrimônio ideológico russo.

"Muitos desses encontros aconteceram em praças e parques que homenageiam personagens comunistas como Lenin. Nesses territórios, esses monumentos e símbolos continuam lá", explicou.

A "descomunização" não é uma iniciativa do governo atual. O processo começou no início de 1990, pouco depois da desintegração da União Soviética, e foi uma política adotada nos governos de Leonid Kuchma (1994-2005) e Viktor Yushchenoko (2005-2010).

O Instituto para a Memória Nacional, por exemplo, foi fundado em 2006, durante a administração de Yushchenko, que tornou a "descomunização" uma prática institucional.

Entre outras coisas, ele ordenou a eliminação de todo símbolo comemorativo de pessoas envolvidas no "Holodomor", o chamado "Holocausto ucraniano", como ficou conhecida a fome que matou milhões de pessoas na década de 1930 pela coletivização forçada promovida por Josef Stalin.

Atualmente, a "descomunização" segue gerando controvérsia, com posições distintas entre aqueles que defendem o direito à liberdade de expressão para falar de diferentes pontos de vista sobre eventos históricos e os que defendem romper defitivamente com os vestígios de um passado soviético que consideram como danoso.

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