Questão militar e situação de Hafter voltam a travar negociações na Líbia

Javier Martín

Em Túnis

  • Goran Tomasevic/Reuters

    8.ago.2016 - Combatente líbio em confronto com o Estado Islâmico

    8.ago.2016 - Combatente líbio em confronto com o Estado Islâmico

As delegações do leste e do oeste da Líbia que negociam um novo acordo de paz sob mediação da ONU deixaram neste domingo (22) a Tunísia depois de terminar a segunda rodada de conversas sem nenhum pacto e sem data para a dialogar.

Fontes próximas à delegação do oeste, que representa o chamado governo de união nacional apoiado pela ONU em Trípoli, confirmaram à Agência Efe que a negociação encalhou e explicaram que o obstáculo maior está na questão militar e na liderança de um futuro Exército unificado da Líbia.

"No aspecto político houve avanços. Já há acordo para escolher um novo órgão de governo transitório formado por um presidente e dois vice-presidentes. Haverá um representante do oeste, outro do leste e um do sul", explicou a fonte ouvida pela Efe, que pediu anonimato.

"Falta resolver a questão técnica de como serão eleitos os três cargos. Quem serão o presidente, os vice-presidentes, e as responsabilidades finais de cada um. Aí, não há acordo", completou.

Um membro da delegação do leste, que também não quis ser identificado, disse que os avanços não foram obtidos porque há muita divergência sobre o futuro Ministério da Defesa.

O impasse foi admitido pelo enviado especial da ONU para a Líbia, Ghassam Saleme, promotor de uma nova negociação que teve início há um mês, em meio a grande otimismo.

"Existem várias áreas de consenso, mas há outras que precisam ser discutidas com os líderes políticos no interior da Líbia", disse.

O diplomata libanês apresentou no fim de setembro um novo plano de ação para acabar com a divisão enfrentada pela Líbia desde 2011, quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contribuiu para a vitória dos rebeldes contra a ditadura de Muammar Kadafi.

O plano, que trata de ampliar o acordo forçado pela própria ONU em dezembro de 2015 e que abriu caminho para a formação do atual governo em Trípolo, pretende criar um novo consenso entre leste e o oeste para convocar eleições no próximo verão.

Mas, apenas um depois depois da retomada do diálogo, parece haver um bloqueio no mesmo ponto que travou o acordo anterior: o papel reservado para o marechal Khalifa Hafter, o homem forte do país.

Antigo aliado de Kadafi, a quem ajudou tomar o poder em 1969, Hafter foi recrutado pela CIA na década de 1980 e levado ao estado de Virgínia, nos Estados Unidos, onde se tornou um dos principais opositores do ditador no exílio.

O marechal voltou à Líbia em março de 2011, apenas um mês depois do início da revolta contra Kadafi, com a ajuda do Egito e dos EUA. Mais tarde, em 2014, foi nomeado chefe do Exército Regular Líbio (LNA), ligado ao parlamento de Tobruk, no leste do país.

Três anos depois, com ajuda de Rússia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, Hafter não só domina a atividade do único órgão com legitimidade democrática na Líbia, mas também a maior parte dos recursos energéticos do país e cerca de 70% do território.

Em 2015, o marechal foi contrário ao acordo nacional que agora está sendo renegociado e que forçou o então enviado especial da ONU, Bernardino León. O pacto determinava, em seu capítulo 8, que Hafter seria retirado do cargo de chefe do Exército.

"O capítulo oito segue sendo o principal obstáculo para o acordo. Hafter consolidou sua posição nesses dois anos, tem mais armas, mais força, mais território. Não há nenhum motivo para que ele ceda", explicou à Efe um diplomata árabe que participou do diálogo.

"O problema é que a maioria das milícias se opõe a Hafter e não estão dispostas a serem comandadas por ele. Estão muito divididas, mas esse é o único ponto de acordo entre elas", destacou.

Nesse ambiente de crescente pessimismo, funcionários da ONU confirmaram à Efe que Salame viajará para Trípoli na próxima semana para tentar aproximar posições ainda muito distantes.

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