Battisti diz que não voltaria a participar da luta armada: "Foi um desastre"

Alba Santandreu

Cananeia (São Paulo)

A cerca de 300 quilômetros de São Paulo, em uma casa decorada com cartazes de Marx, Picasso e Dalí, o ex-ativista italiano Cesare Battisti, condenado na Itália por quatro homicídios, garantiu que "não voltaria a participar da luta armada porque foi um desastre".

Battisti, ex-membro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), um braço das Brigadas Vermelhas, interrompeu os trabalhos de seu novo livro - inspirado em Cananeia, cidade em que vive desde o começo do ano - para falar sobre sua possível extradição e o risco que voltar à Itália representaria.

"Correria perigo de vida na Itália. Essa foi a razão principal pela qual o ex-presidente Lula assinou o decreto", afirmou Battisti em entrevista exclusiva à Agência Efe.

Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios que teriam acontecido há 40 anos, se refere ao decreto assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia de seu mandato, em 2010, em que negou a extradição à Itália, o que causou tensões políticas entre os dois países.

Em Cananeia, o italiano, de 62 anos e que tem um filho de quatro com uma brasileira, vive em uma casa emprestada por um amigo, onde espera agora uma nova decisão do Supremo Tribunal Federal sobre sua extradição, e se mostra confiante sobre o veredito.

Torcerdor do Corinthians, como revela uma bandeira e uma foto do ex-jogador Sócrates na parede da sala, Battisti diz estar "tranquilo" sobre o julgamento do STF, porque não considera possível "realizar uma extradição de forma legal", já que em sua avaliação o prazo legal para revogar o decreto promulgado por Lula acabou há dois anos.

Battisti nega ter cometido os assassinatos pelos quais foi condenado, e reconheceu a luta armada como um erro, mas ponderou que não quer "criticar nem se fazer de juiz" das milhares de pessoas que optaram por esse caminho.

"Não deveria ter entrado na provocação armada e pegar em armas. É fácil se arrepender ou criticar depois, mas naquele momento parecia óbvio", argumentou o italiano.

Battisti afirma ter, na sua juventude, caído em uma armadilha, e que hoje optaria pela via política para "lutar pela justiça social" se os tribunais não o tivessem proibido.

"É difícil ter 20 anos, ver amigos assassinados pela polícia e ficar parado. É fácil entrar na provocação. Falo de provocação porque muitas vezes foi feito de propósito (o contramovimento), justamente para combater um movimento cultural. A única forma de acabar com ele era entrando na luta armada. E caímos nessa armadilha", detalhou.

A sua batalha, 40 anos depois, é evitar sua extradição à Itália, decisão pela qual o governo do presidente Michel Temer parece se inclinar, e que voltou a ganhar peso após sua detenção na fronteira da Bolívia, acusado de evasão de divisas.

Para ele, a prisão na fronteira boliviana no começo de outubro foi uma "tentativa de sequestro", pois as autoridades tinham acionado um avião para mandá-lo de volta à Itália sem passar pela Justiça brasileira.

"Acredito que estava sendo seguido pela Polícia Federal. Eu não tinha me dado conta de nada, não estava paranoico, mas após Corumbá me dei conta que estavam em cima de mim, organizando um sequestro desde maio. Não se pode falar em outros termos quando se quer executar algo sem ser pela Justiça ", acrescentou.

Apesar da encruzilhada judicial, Battisti diz gostar de sua vida e se sentir brasileiro: "Não dou nada pela Itália. Deixei de me interessar por ela quando saí. Talvez seja uma espécie de proteção instintiva, para esquecer".

Enquanto espera a definição de seu futuro, o italiano continua com a construção de uma casa, agora própria, em Cananeia. Nela, Battisti acredita que passará o resto de seus dias.
 

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