Os esquecidos massacres cometidos pelos sul-coreanos na Guerra do Vietnã

Eric San Juan.

Ha My (Vietnã), 3 nov (EFE).- O exército da Coreia do Sul foi responsável por alguns dos massacres mais cruéis da Guerra do Vietnã, mas, ao contrário das matanças cometidas por seu aliado, os Estados Unidos, as ações sul-coreanas quase não receberam atenção por parte de historiadores e dos meios de comunicação.

Um relatório publicado pelo governo vietnamita depois da guerra cifrava em 5 mil as vítimas civis dos sul-coreanos, mas a pesquisadora Ku Su Jeong, que divulgou os massacres em seu país no fim dos anos 1990, calcula que foram 9 mil mortes e cerca de 80 massacres.

O mais violento deles foi o de Ha My, um pequeno povoado no centro do Vietnã onde, em 25 de fevereiro de 1968, um grupo de soldados sul-coreanos executou 135 pessoas a sangue frio, quase todos eles idosos, mulheres e crianças.

Nguyen Coi, um homem de 72 anos que naquele dia perdeu sua mãe e seu irmão caçula, era um jovem guerrilheiro vietcong em 1968 que passava os dias escondido em um túnel perto da cidade, de onde só saía pela noite.

"No povoado só havia mulheres, idosos e crianças. Os homens precisavam se esconder e lutar em um lado ou no outro", comentou o ex-guerrilheiro.

Coi lembra como, em janeiro daquele ano, começaram a chegar a Ha My soldados sul-coreanos e como, após uma reserva inicial, eles ganharam a confiança dos locais.

"Nos primeiros dias eles foram simpáticos, davam doces e biscoitos às crianças e, às vezes, comida aos mais velhos. Por isso, aconselhamos as pessoas da aldeia a permanecerem", relatou o ex-vietcong.

No entanto, tudo mudou em 24 de fevereiro de 1968, um dia antes do massacre, quando os militares sul-coreanos reuniram os 150 moradores do vilarejo dentro de quatro casas.

No dia seguinte, entre 7 e 8 horas da manhã, os sul-coreanos executaram todos os moradores e depois queimaram as casas para apagar qualquer resquício. Coi afirma que ouviu de seu esconderijo os gritos, as rajadas de disparos e as explosões, seguidos de um silêncio que apenas foi interrompido pela voz de uma criança de aproximadamente cinco anos que clamava por sua avó.

"Estava escondido com outros seis vietcongs, mas não podíamos sair antes que a noite caísse, embora soubéssemos que tinha acontecido algo. Eles também nos matariam", contou Coi.

As poucas pessoas que sobreviveram, só conseguiram fazê-lo porque se fingiram de mortas até que os carrascos fossem embora.

Uma delas é Truong Thi Thu, uma mulher de 75 anos que naquele dia fatídico perdeu seus três filhos: duas crianças de 7 e 9 anos e um bebê de três meses.

"Dispararam em rajadas, me acertaram nos pés e no braço", contou Thu, enquanto mostrava as cicatrizes e sua perna direita, que teve o pé amputado.

Quando os sul-coreanos atearam fogo à casa onde estava, Thu conseguiu rastejar para o lado de fora e se escondeu sob uma árvore, até que a noite caiu e chegaram Coi e seus companheiros.

O ex-guerrilheiro, que nos anos 1990 foi prefeito de Ha My, tenta formar um relato estruturado e objetivo, mas sente dificuldade para manter o tom de voz quando se lembra do horror com o qual se deparou naquela noite, "na qual sequer havia lua".

"Tudo era horrível", sussurrou. "Passávamos o dia todo sem comer nada e alguns companheiros desmaiaram ao ver o que tinha acontecido".

Coi e seus companheiros prestaram atendimento aos feridos, como Thu, e os levaram em macas improvisadas para um navio-hospital alemão a dez quilômetros de distância, e retiraram todos os corpos das casas. A maioria deles, queimados e sem familiares vivos, não foram identificados.

"Não pudemos enterrar todos. Nunca encontrei o corpo da minha mãe", confessou Coi com enorme tristeza.

No dia seguinte, os coreanos voltaram e esmagaram os corpos que jaziam no local com seus tanques, apagando qualquer esperança de identificá-los.

"Cada família com algum sobrevivente sabia o número de mortos que tinha e os corpos eram distribuídos assim, por quantidade, mas sem saber de quem eram", explicou Thu.

Hoje, um monumento erguido num campo de arroz próximo lembra os nomes de todas as vítimas e todos os anos são feitas homenagens às quais comparecem turistas coreanos e, inclusive, descendentes dos que cometeram o massacre.

Thu conta como filhos e netos daqueles soldados a visitaram para lhe pedir perdão. "Digo a eles que não guardo rancor de ninguém. Jamais me esquecerei das imagens daquele dia, mas elas já estão no passado", disse.

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