Presidente do Zimbábue tenta manter legado batizando construções com seu nome

Oliver Matthews.

Harare, 10 nov (EFE).- O aeroporto internacional da capital do Zimbábue, Harare, passou a se chamar Robert Mugabe em homenagem ao presidente do país africano, que aos 93 anos tenta garantir seu legado dando o próprio nome às principais infraestruturas do país.

Em todas as cidades existem ruas e avenidas batizadas em homenagem ao controverso líder, e até a escola da Agência de Espionagem do Zimbábue, a CIO, se chama Robert Gabriel Mugabe, o mesmo nome que provavelmente receberá um enorme lago artificial que está prestes a ser inaugurado no sul do país.

A foto oficial do presidente, que data de quando ele era muito mais jovem, decora todos os escritórios públicos. E, como se isso fosse pouco, o governo tem planos de estabelecer 21 de fevereiro - dia do aniversário do presidente - como feriado nacional, e criar a Universidade Robert Mugabe na região norte de Harare, cuja construção é calculada em bilhões de dólares.

Segundo o ministro de Transporte, Joram Gumbo, Mugabe, no cargo desde 1980, tem um rico legado a ser preservado.

"A sua história não deve ser esquecida nem pelas pessoas que visitam o nosso país", afirmou, em referência ao papel que Mugabe teve na guerra de independência contra o regime da minoria branca da antiga Rodésia do Sul e às expropriações de posses de fazendeiros brancos para fortelecer financeiramente os zimbabuanos negros.

O analista político Takavafira Zhou tem outra opinião.

"É uma síndrome da África. Os homens poderosos querem que seus nomes sejam associados a absolutamente tudo", afirmou.

O porta-voz do principal partido da oposição, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC, sigla em inglês), Obert Gutu, denunciou a iniciativa como uma "personalização dos ativos do país" por parte de Mugabe e sua família.

"É um homem intoxicado pela sua própria paixão pelo poder", disse Gutu, antecipando que se seu partido vencer nas próximas eleições, o aeroporto de Harare deixará de se chamar Robert Mugabe, um nome que muitos vinculam ao conceito de ditadura.

No entanto, outros especialistas asseguram que este 'frenesi de renomear' não procede diretamente do presidente, mas de uma ala do partido dele, a União Africana Nacional de Zimbábue - Frente Patriótica (ZANU-PF), que quer mostrar controle sobre a legenda e o país quando Mugabe morrer.

Controlado pela sua esposa, a primeira-dama Grace Mugabe, esta ala conhecida como G40 já conseguiu sucessos como a destituição do vice-presidente Emmerson Mnangagwa, que liderava outro grupo rival dentro do ZANU-PF e que também queria ter poder na era pós-Mugabe. Este movimento pode acabar abrindo caminho para a própria Grace assumir a vice-presidência, em um prelúdio de suas ambições de dirigir o país.

Apesar de Grace parecer fugir do assunto, Zhou disse acreditar que o G40 está cometendo um erro.

"Não se pode construir um movimento sobre um homem que tem 93 anos e que pode morrer a qualquer momento. É preciso um novo enfoque no Zimbábue para ajudar o presidente e deixá-lo descansar".

A incerteza sobre quanto tempo Mugabe ainda viverá é tão grande quanto a dúvida sobre o futuro do país. Os preços estão disparando, e o medo de uma nova hiperinflação como a que destruiu o país economicamente há uma década surgiu. Além disso, as reservas de moeda estrangeira parecem escassas diante de pagamentos básicos, como a importação de produtos de primeira necessidade.

Mugabe, que completará 94 anos em fevereiro do ano que vem, parece mais frágil do que nunca - frequentes são as fotos em que ele aparece dormindo em conferências internacionais -, embora mantenha o tom beligerante e garanta que vai concorrer à reeleição em 2018.

Alguns jornais dizem que Grace Mugabe está assim protegendo - se o seu plano de chegar ao poder utilizando o nome e o legado do marido falhar - os investimentos que está fazendo para sustentar a família quando ela deixar de ter acesso privilegiado aos recursos do país.

Estas informações sugerem que a primeira-dama está fazendo grandes investimentos imobiliários em Harare e em Johanesburgo, na África do Sul, e ela é ligada à criação de uma companhia aérea privada que compete com a deficitária companhia aérea pública, Air Zimbabwe.

A estratégia de estabelecer o nome de Mugabe para marcar o caminho da sua sucessão parece dar frutos, pelo menos dentro do partido. E, quando falecer, o presidente mais velho do mundo saberá que seu nome vai coroar as principais infraestruturas do país que governou com mãos de ferro durante tantos anos.

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